18 - Tempo que voa, tempo que não passa

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

— O doutor disse que não respiro. Não, não paro. Tenho ganas de cravar as unhas no peito para arrancar algo que não pode continuar a existir dentro de mim. Queria ver as nuvens, buscar alívio naquela abóbada plúmbea prestes a desabar sobre minha cabeça...
É isso.
— Não pode ser! — Bete senta-se na outra poltrona. Pare.
Não tem erro. Ele estende a receita à mulher. Ela apanha e a custo começa a ler. Grande demais. Não cabia no quarto, ficava me olhando deitado lá embaixo, delirando comigo, pensando não caber em mim, grande demais, pensava, não cabe em mim nem no mundo, me engana começando a contar a partir do cinco, do dois, do onze, e engano, conto a partir do oito, o oito era, era, sempre foi meu número, não digo que seja o da sorte mas é o meu, não sei por que mas para mim serve para todas as coisas, todas as contas, tudo deveria ser oito, oito dedos, por que temos dez dedos? Por que duas mãos e não oito? Oito olhos, oito mães, oito casas, oito países, oito mundos, oito vidas, oito recordações daquele dia em que eu e meus oito pais fomos pescar e pegamos oito peixes, ah pai como me lembro daquele dia, oito vezes oito vezes oito vezes, eis minha aritmética particular, caminho cabisbaixo pela calçada e conto oito passos de oito em oito e ninguém vai conferir mesmo, não tenho mais meu inimigozinho aqui dentro, conto quanto me der na telha onde me der na telha, sou infinitamente livre, presto contas é a mim mesmo, vou dando meu passeio para o norte e para o sul em meu impossível duelo com ninguém...
— Pneumonolopleurigilisia aguda! — Bete arregala os olhos, o queixo desaba. — É grave? Ah! Você voltava não para casa mas para outro lugar. Para a casa dele. Com os passos dele. Na vida dele. O quarto dele. E então quem não cabia agora era você.
Por quê?
É tão difícil saber a verdadeira razão?
Cândido lambe os beiços.
— O doutor diz, não é fatal. Sei não. E se for? Ele me obrigava contar os passos mas eu não queria, não. Não queria, tolice, mesmo sendo coisa de criança, sabe, era delírio, dos ruins, bebedeira de fel me inebriava de dor, no fundo não queria ir, a lugar algum, queria nada, ele me obrigava, me fazia voltar, aonde? não tinha mais casa, então os passos não batiam, a rua da volta não era a mesma da ida, não havia razão e a aritmética não podia dar certo.
Chegou o Natal. Belô é um vilarejo antinaviano, o mundo já foi varrido pela imensa vassoura do demônio assustando os pombos da enorme estátua de Getúlio na praça da igreja.
— Fica sismado não, bem. Faço um chazinho. Ah! Matei — o homem no divã parece radiante. — Quem contava os passos a caminho da padaria era ele. Na volta, quem contava era você.
O único que parece infenso ao Natal é papai-getúlio, cada dia mais magro e careca.
— Só se for chá-de-emergência. Meu companheirinho interior doía. Doía tanto que não cabia dentro de mim. Era incomensurável e mesmo assim vivia aqui dentro.
Desesperado, Cândido gagueja:
—  Quer dizer que...
— Tá bem. Não se preocupe. Todas as crianças têm. Todas as crianças são, com perdão da palavra... um... ã... lúdicas! Se deixam envolver em fantasias. Brincam com os sentimentos.
E continua:
— Não esquece as duas lágrimas esquisitas...
— Agora me lembro. Meus dias eterno estratagema me ludibriava de mim. Lembro, o amiguinho interno.
Melhor a flor silvestre; quem se divertisse, e como! Pero mejor nos encontrarmos en el centro. — Não vou esquecer. Nem das três gotas de suor de vendedor solitário. Contava os passos porque não tinha nada que fazer, que pensar. Na solidão, precisava de invencionices, subterfúgios.
Olhava a praia então. —  Ou dos quatro fios de cabelo de madame sob rígida dieta emagrecedora. Sim. No lugar dele tenho esse vazio indefinível que me ocupa por dentro.
Melhor agradecer as lições insolicitadas. —  Com acompanhamento das fases da Lua. Por que padecer por essa bobagem? Hoje não tem mais aonde ir, a padaria já não existe, o euzinho com quem conversava àquela época já não existe, não te recrimina mais, não exige o balanço contábil do teus sentimentos.
Tateia a parece à procura da pera do abajur. Eles se olham e riem. Cândido franze o cenho. Como nunca pensara nisso? O mundo é tão simples. Ele e sua mania doentia de complicar tudo.
Se desloca da cama para a poltrona, agulhadas algures entre a cabeça e os pés. — Amanhã mesmo vou ver esse especialista. De certo ele tem uma cura para isso. Tudo tem cura nesta vida, não tem? Vai ver batiam porque não contavam os passos, fácil.
É sábado, sim. Acorda cedinho. Se veste. Vai ao banheiro. Lava o rosto. Se move à cozinha onde planeja tomar café-da-manhã. Antes, volta ao banheiro, se esqueceu de mijar. Apanha a receita com o endereço do especialista e enfia no bolso da camisa. Sai de casa e ruma para a estação do metrô mais próxima. Porque olhava os outros e estampavam na cara aquela expressão satisfeita de quem tinha números que batiam.
O mal simplesmente. Pretendendo fazer de conta para si mesmo que não aquilatou todo o ominoso significado da resposta, Cândido dá uma vista d'olhos pelo saguão de entrada do palácio. Não pode enxergar muito, a única iluminação provém da tíbia chama duma lamparina a querosene no alto duma parede. E, ainda mais, o saguão não tem uma só janela. Sequer um postigo. Mas que aritmética difícil essa sua. Por que era tão importante que os números batessem?
Limpeza imaculada. Mesmo no escuro. — Vamos chegando! — O porteiro ergue um braço, indicando uma passagem para outro cômodo também às escuras e dando nas costas de Cândido um cutucão que é mais imperativo que grosseiro, mais ordem que convite. De repente para como se lembrasse de algo. — Antes que me esqueça. Preciso fazer uma exame preliminar. Olha que o Chefe fica uma fera! — Agarra a nuca de Cândido com uma das mãos numa firmeza espantosa e, com a outra, força um dedão entre seus lábios. N... não.
Cândido exala uma lufada de suor gelado. Quer afastar o rosto mas a mão lhe comprime a nuca feito um tenaz a lhe sujeitar a cabeça. Cerra os lábios tentando impedir que o dedo lhe viole a boca, não consegue resistir ao ímpeto do outro. Os números bateram alguma vez?
Dá um grito, pra quê? saracoteia. Vamos fazer um passeio. O porteiro começa a empurrar ritmadamente a mão para a frente e para trás, iniciando um assobio monocórdico e contínuo hipnotizante. Cândido procura apelar mentalmente para a Décima, quer suplantar aquele silvo insuportável com os velhos familiares acordes, mas o Ralo se nega a rodopiar, e sem rodopio, nada de música. É que, mesmo depois de velho, continuei a contar meus passos.
Tem ciência apenas da memória da beleza: está indefeso. Sente as pontas dos dedos roçando as amídalas. Fecha os olhos, se entrega, faz de conta que não sente a boca inundada pela estranheza de gosto azedo râncido asquerosamente inidentificável. Se deu certo, por que está cabisbaixo como naquele dia?
O porteiro começa a gemer.
O gemido vai crescendo em intensidade.
É um murmúrio no tom mais baixo da escala musical. Quando aparentemente seu braço cansa, troca de mão, enfiando outro dedo na boca do recém-chegado. Acho que sim.
Cândido abandona a peleja. Está vencido. Olhos sempre fechados, permite docilmente que o outro consuma o coito oral. A pergunta do homem no divã o desperta da viagem ao passado. Só consegue responder baixinho.
Muitos minutos, horas? depois Pedrão se dá por satisfeito, remove a mão. Se recompõe, esticando a camiseta encardida. Apanha Cândido por um braço e puxa. E deu certo?
Já experimentou todas as combinações possíveis. Desanda a salivar freneticamente, quer eliminar o gosto insólito nauseabundo deixado na boca. Rebocado pelo outro, entra na sala contígua. Vai contando novamente os passos. Só que os números nunca batem. Nunca bateram, sequer uma vez. Fica exasperado, nada dá certo na vida dele. Então morre de vontade de sacanear e pensa, amanhã vai bater na marra, vai fingir que o número da ida é igual ao da volta, tem de dar certo, algo tem de dar certo.
Mas não nunca dá. Pedrão solta seu braço e se dirige a uma velha mesa de escritório encimada por um potente lampião. Cândido estaca em meio ao breu, sem saber exatamente o que fazer. A luz limita-se estranhamente ao entorno da mesa, sem clarear o restante do ambiente, como se houvesse uma barreira invisível lhe barrando o fluxo. É cedo, bem cedinho. Mamãe mandou buscar leite. Está saindo pela porta da rua. Vai andando pela calçada contando os passos. Conta cada um deles. Chega à padaria, pede um litro de leite, que naquela época é vendido em garrafa de vidro de gargalo largo e tampa de alumínio difícil de tirar. Só adultos ou seu irmão mais velho conseguem remover a tampa sem rasgar. Manda o português marcar o leite na caderneta e põe-se de volta para casa.
Por que raios foi casar? Por quê? Não respondeu; olhava para ela. As coisas por aqui são meio esquisitas, dá de ombros. Lembra. Caminha cabisbaixo pela calçada, sem pensar em nada. Tem o mesmo porte de agora, a mesma altura, o mesmo peso, mas criança. Caminhando, mente a si mesmo dizendo alto que não pensa em nada, mas pensa em tudo — quer pensar em tudo.
Destoando da limpeza olímpica ao redor, a mesa está imunda duma substância pegajosa. Está atulhada duma miscelânea de papéis e pastas, que o porteiro põe-se a remexer estabanadamente. Lembrar, lembrar, lembrar! — o homem rosna, sempre voltado de costas para Cândido. — Lembra desse dia?
O grande problema de Minas é não ter mar. Ninguém pode ser feliz só conhecendo a praia já adulto.
— Albuqueeeeerque! — ele estufa os pulmões e berra. Porra, não posso esquecer pelo menos aqueles trauminhas mais brabos?
É por pouco que Cândido não sofre um enfarte, embora não respire mais. Embora não respire mais, sente-se cada vez mais mortal. Esquecer é coisa lá de fora. Aqui é só lembrar, lembrar, lembrar...!
O grande problema do mineiro é não ter um ofício.
— Albuqueeeeerque! — à beira dum ataque de nervos, o cara-de-batata rerruge. Como assim?
Cândido reza, que o tal Albuquerque apareça de vez. Por aqui não há muita alternativa.
Quêêêê pooooorrrra! — uma voz igualmente irascível responde longe e abafada. Aí é que está. Não estou bem certo.
— Quem foi o desgraçado que mexeu na merda da minha meeesaaaaaa?
Então quer esquecer de vez?
Crescentemente aflito, Cândido procura manter a conta dos palavrões. Tem de contá-los, mesmo que seja para não perder o hábito metódico de controlar as coisas. Anda meio esquecido. Principalmente nos últimos anos.
Pausa. Escuta-se uma pesada tranca metálica sendo aberta com alvoroço em algum lugar na escuridão além da saleta. Segundos depois entra um homem batendo nervoso os pés no chão e proferindo entredentes algo que Cândido não consegue distinguir mas que são impropérios, decididamente. E dos pesados. Qual o problema, exatamente?

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