14 - Rodamoinho crepuscular

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

A única vez no ano em que Cândido sentia-se minimamente feliz era quando chegava o dia em que finalmente tinha a chance de exercer o papel de aniversariante. Nos demais dias do ano vestia um ar respeitoso e compungido e guardava um silêncio monástico.
— Bom, doutor, é  um troço ruim bem aqui. — Põe as duas mãos no peito. — Depois, aqui. — Leva a mão esquerda à testa. — Aí vem pra cá. — Aperta a barriga com a mão direita. Sentindo o rosto arder de humilhação, para no meio do caminho e recolhe a mão, embaraçado. Fita o outro por alguns instantes, pasmo. Então, volta a cabeça na direção do porteiro, esperando talvez ganhar um olhar comovido, mas o porteiro já não está na sala. Provavelmente saiu por outra porta fora do campo de visão de Cândido.
Ele parece estar numa calçada, o médico na outra.
— Um-um. Fique em pé e tire a camisa, faz favor. — O olhar do médico abandona a frieza e brilha escrutinador ao percorrer o rosto dele. Chiu! Só abra a boca quando interpelado! — Jorge ralha, sequer alçando os olhos do caderno em que anota algo.
O obrigavam a comparecer em todos os casamentos e os enterros havidos na família. E tinha de ir bem-vestido. A parede do fundo do consultório é coberta por uma grande cortina. E, naturalmente, Cândido crê haver alguém atrás da cortina. Olhar escrutinador, hehehe! Faz um esforço de cachorro para conter a gargalhada e manter o rosto sofrido impassível. Apesar da tentativa sabe que os lábios se apertaram ligeiramente e o olhar caiu a contragosto para o chão. Jorge, que surpresa! — Cândido ruma para o homem com a mão estendida para cumprimentá-lo.
Lhe ocorre um pensamento. Um pensamento estranho. Pensa em contar ao doutor que a raiz do seu problema é não amar ninguém e ninguém o amar. O médico instala o estetoscópio nas orelhas e aponta o auscultador para o peito dele. Assim que ultrapassa o umbral, Cândido avista um homem sentado atrás duma mesa e o reconhece de imediato. É o Jorge, um dos seus subalternos no escritório.
Algo de bom em si persiste mas não por virtude. Ele, que sempre teve curiosidade em saber como é enfiar aquele troço nas orelhas para escutar o próprio coração mas nunca teve coragem de pedir, nem mesmo quando fora à farmácia do bairro tirar a pressão aquela vez em que uma lata de areia caíra do andaime da obra dum sobrado que estavam construindo perto da padaria na esquina da sua casa bem encima da cabeça dele, estufa o peito, preparando-se para a auscultação. Põe-se em pé e segue resignado atrás. Passam por inúmeras portas que não têm a mais leve diferença entre si, até que o porteiro abre uma delas e entra.
Sempre foi um sujeito desalentado sob o fardo das humilhações. Uma das mais finas, das que mais o incomodam é não saber dançar. Qual foi a última vez que sentiu aquele tipo de olhar intimidatório dirigido contra seu rosto, frio como se não se preocupasse com que pudesse ver, duro como se não se importasse com a possível fragilidade daquilo que seu rosto tão arduamente procurava esconder, e ao mesmo tempo curioso com o que pudesse haver de tão valioso por trás daquela vã máscara de pedra, e devasso em macular o santuário da intimidade alheia, e travesso em descobrir que tinha o poder de manipular deliberadamente seus sentimentos pelo simples capricho de querer brincar? Levante-se! — Pedrão ordena, dando-lhe no rosto uma bofetada encorajadora. — Venha comigo. Tenho uma tarefa para você. — Dizendo isso, começa a se afastar.
“A morte há de me adaptar para esta vida que não sei viver”, é seu lema mais recôndito, que nunca se atreveu a participar a ninguém. — Um-um — o médico vai repetindo, fitando-o com o olhar poderoso enquanto desliza o auscultador do estetoscópio dum lado a outro em seu peito. Entre os novos hóspedes há um jovem pequeno e ansioso dizendo-se pescador, à procura dum grande peixe artificial que fisgou há semanas com seu poderoso anzol pontiagudo, escarlate de sangue. Leva pendurada às costas uma fieira de náilon com que transpassou diversos crânios humanos, que ostenta orgulhosamente como troféus. Passa várias vezes por dia pelo corredor onde Cândido ficou preso pelo dedo descrevendo aos brados as circunstâncias em que capturara o dono de cada um dos crânios. Cândido é tomado de calafrios toda vez que se cruzam no caminho. Lhe aterrorizam as histórias que o pescador conta. A mais angustiante fala dum bando de anjos reacionários que foram expulsos do Céu pelo Comitê dos Cinco, órgão supremo que se reportava diretamente a Deus e cuja autoridade só era menor do que a do Todo-Poderoso. Os anjos dissidentes tinham sido deportados para a mais alta montanha da Terra, cujo pico pairava acima das nuvens. No cume dessa montanha tinham pregado uma tabuleta dizendo ser ali a entrada do Céu. Com isso, haviam conseguido atrair traiçoeiramente muitos mortos incautos que não se preocupavam em determinar a localização correta nos mapas que lhes eram dados após a morte com o endereço do seu novo destino. Os mortos assim ludibriados eram seduzidos a procurar fantasmas e quimeras sem razão aparente, e passavam a vagar por corredores escuros por toda a eternidade, torturados das formas mais cruéis possíveis, entre as quais transformarem-se em atores que eram então obrigados a acreditar na palavra de políticos, ter as almas convertidas em caixas de palha que eram incendiadas dia após dia, ser condenados a empurrar o mundo com as mãos, escutar ad infinitum uma orquestra de chineses que produziam as mais estapafúrdias sinfonias chupando o tutano de ossos humanos, receber todos os dias os mais encantadores presentes sem poder identificar quais deles vinham do diabo...
Está convicto de que em sua maioria os humanos são doentes mentais. Ele, querendo evitar o olhar aniquilador e agora também o hálito do médico, que aparentemente acabara de tomar café com leite da garrafa térmica de seu pai e comer bolo de fubá feito por sua mãe, ergue os olhos para cima e se põe a estudar as manchas e fissuras do teto, concluindo que uma mãozinha de tinta viria a calhar e pensando que poderia oferecer ao doutor seus serviços de pintura em troca do dinheiro da consulta mas sem se atrever a se ofertar. Novos hóspedes começam a chegar, sendo recebidos por um vendedor de eletrodomésticos que diz, “Tudo aqui é normal, tudo aqui é normal!”
Sempre o irritaram as manias e as superstições dos homens. Papai, por exemplo, nunca pegava dinheiro com a mão esquerda. É o tipo de doença que lhe provoca profundo desapontamento, uma vontade final de desistir dos outros. Qual foi a última vez que sentiu aquele tipo de olhar visceral? pergunta no seu monólogo, mas não sabe de onde tirar a resposta. Vem a preguiça gorda e se esparrama pachorrenta e indiferente sobre os múltiplos fragmentos da vontade espalhados em minúsculas poças ressecadas na vastidão árida da Caverna Absoluta. Certo dia, cansado de andar a esmo no escuro, pensa ter visto um interruptor num canto duma das paredes. Entusiasma-se, imaginando que finalmente teria luz, e mete o dedo no interruptor. É um anzol, um enorme e pontiagudo anzol que se enterra em seu dedo quanto mais ele tenta soltar-se.
Por um momento se culpa pela intolerância com o pai morto há longo tmepo e sente remorso.
— Vire-se — o médico pede, afastando-se um pouco. Está hospedado num hotel. Hotelzinho barato e imundo no centro abandonado de Belô. Diária exorbitantemente cara, não consegue pagar. Por isso não pode sair. O hotel não tem dono nem gerente nem carregadores. Só hóspedes, que vivem brigando por qualquer ninharia. Os que não suportam as brigas fogem. No fim todos fogem, menos ele. Em todas as paredes do hotel há um grande cartaz preto com regulamentos escritos em letras brancas. Toda vez que passa por um corredor ele para e tenta ler o que dizem os regulamentos, mas nunca consegue. Lê apenas a primeira letra, “T”, depois as letras se embaralham e ele precisa desviar os olhos. Às vezes passa correndo por um dos cartazes e consegue ler alguma coisa de soslaio, mas são sempre fragmentos de frases que não têm sentido: “você escolhe...”, “proibida para adultos...”, “uma semana...”, “castigo de Schumann...”, “inspeção todas as tardes...”
É sua cabeça reinando outra vez. A ciência do Conflito entre sua mente, seu espírito, sua alma e seu racicínio não ajuda muito, todavia. Da escuridão à frente brota um burburinho, há um conglomerado de gente produzindo um vozerio de que não distingue sequer uma palavra. Eles parecem prestes a partir para uma importantíssima missão. Dá meia-volta, meio aliviado de poder escapar do bafo-de-onça. Pelo amor de Deus, me mate! — implora ao porteiro. — De uma vez por todas! — E desmaia.
Depois do derrame a mãe levou meia hora para morrer, morreu de olhos abertos na sua frente, que não teve coragem de fechar. O Conflito amainou por um instante. Os ecos elásticos do instinto de sobrevivência se insinuam por entre os interstícios das paredes da Caverna Absoluta, sob o olhar vigilante mas impotente do controle da vontade, e ressoam na fritadeira incandescente do cérebro, formando uma resposta erigida em fumaça. O cara-de-batata aproxima a lamparina dele. Cândido fecha os olhos e inclina o pescoço para baixo. Devo estar todo branco, imagina. Vomitei todo o leite que mamei. Abre os olhos. Está coberto de vermelho. A substância que expeliu é sangue.
Sempre desconfiou que começaria a se dar bem depois que a mãe se fosse deste mundo. O médico repete o exame. Acabou! — diz, erguendo os olhos para cima em sinal de gratidão. — Nem acredito.

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