15 - A partida

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Assim que seu coração parou de bater, mamãe iniciou sua ascensão. O meio de transporte determinado foi um balão. Não daqueles balões usados por esportistas e magnatas que dispõem de todo o tempo da vida para ocupar suas horas de ócio, mas um balão de São João ou, para os de ouvidos demasiado sensíveis a rimas acidentais, de São Pedro. E não era um balão do tipo chineisinho, composto de apenas duas partes, a superior e a inferior, e sim uma grande caixa trapezoide, a mexerica, feita de nada menos que 24 folhas furta-cor.
— Um-um. Um-um. — Vai mudando o auscultador de um ponto para outro nas costas dele. De repente, o insuportável mal-estar cessa. Cândido apalpa a barriga, receoso de que ainda não acabou.
Pendurada pela mão direita (era canhota) na boca da mexerica multicolorida, mamãe começou a se afastar, no rosto uma expressão nem risonha nem séria mas neutra duma neutralidade de que Cândido jamais imaginara que ela fosse capaz, uma neutralidade de quem perdeu o passado e não espera o futuro, a neutralidade própria da morte. No outro hemisfério do balão, segurando-se num guizo que pendia do bico superior da nave mortuária, papai sugava avidamente um dos gomos da mexerica, sua fruta favorita, que chupava logo depois do almoço no fundo do quintal 38 anos antes.
— Pode sentar. — O médico põe o estetoscópio de lado. Apanha um estojo sobre a mesa. Abre o estojo e retira um termômetro. Segura o termômetro pela ponta e brande freneticamente. Aguenta, sim! Vamos. Força!
Embora já um cavalão, como mamãe-estátua gostava de chamá-lo nada carinhosa (“Vai podar essa juba, seu banana! A fronha tá que é só piolho!”), Cândido tinha suplicado dentro, temeroso de mover os lábios, “Não vai, mãe! Por favor, mãe...” Agora sabe: o olhar visceral pertence à estátua que viu na recepção. Não aguento mais! — consegue grunhir para Pedrão.
Por favor, mãezinha.
Sempre se maravilha quando vê enfermeiras e farmacêuticos chacoalhando termômetros daquele jeito e sempre quis saber por que fazem aquilo mas nunca teve coragem de perguntar. Cândido obedece. A água, totalmente insípida, desce-lhe pelo esôfago pura como se tivesse acabado de brotar duma bica. Então, no fundo da garganta, sente um gosto de fel misturado a algo que não consegue identificar. Em seguida, um bolo se forma no estômago, acompanhado de insuportáveis engulhos. Não estranharia se o doutor dissesse que tem um ninho de escorpiões na barriga. O bolo começa a abrir caminho esôfago acima, querendo sair. Cândido não pode mais conter-se; abre a boca e vomita. Tem a impressão de que está exorcizando o próprio diabo. Aos berros, dobra o corpo de dor. Um rio duma substância pastosa parece fluir de dentro, fluxo caudaloso e espesso, enleado duns caroços que machucam a garganta. Pela enésima vez quer respirar. Pela enésima vez, quer bater a cabeça na parede, desesperado, sem saída. O abdômen se contorce, tentando expulsar o que parece ser a semente do demônio.
Foi uma das duas únicas vezes em que se comoveu sinceramente em toda a vida. A outra aconteceu quando flagrou Bete... Ah! a lembrança da mulher em braços estranhos o esmaga. O olhar das estátuas, o mais inclementemente intrusivo que há, pois vazio como o olhar da morte. Bá! Oito, sessenta, que diferença faz? A aritmética não tem importância nenhuma aqui Muito menos a sua aritmética! — Ele entrega o copo a Cândido. — Bebe!
Tinha de lembrar da Bete! A Bete e seus idílios (ah, seu maior sonho era participar dos idílios da Bete. Poderia passar horas assistindo ao filme dos inumeráveis idílios da Bete. Foi naquele primeiro flagrante que descobriu que a Bete tinha um apetite insaciável...). Depois de sacudir e examinar cuidadosamente o termômetro, o médico ergue o braço dele, segura no ar, mete o termômetro sob a axila e torna a baixar o braço. O senhor pôs sessenta!
Mamãe bem que alertou, “não confio nessa mulher, não quero essa mulher de nora!” Papai não abriu a boca, pra variar, mas seu olharzinho arisco pareceu suplicar “Filho, só não traga vexame para nossa casa. Pense no que os vizinhos vão dizer!” Tem ímpeto de pedir que o termômetro lhe seja introduzido no ânus, pois sempre quis saber qual seria a diferença. Se contém miseravelmente. Se estátuas tivessem cu e se existissem termômetros de granito... Cândido fita atentamente o conta-gotas e conta.
Papai só sabia falar de futebol. Quando o interlocutor circunstancial levava a conversa para a política, ele se apressava em mudar de assunto. Se estivesse presente, mamãe trazia à baila seu lema predileto, limpeza, pretexto para cair de pau em cima de Quitéria, a empregada pernambucana. Pouquíssimas famílias tinham empregada aquela época, distinção que só viria a ocorrer a Cândido já adulto. “...distinto na distância, quando ainda era bastante vago, qual um motivo orquestral...” Oito.
De súbito a mexerica parece se enroscar na galharia da fileira de pinheiros que margeava um dos lados do quintal. Bem que Cândido reclamara quando papai decidira preencher a área com árvores estrangeiras. Passadas algumas dezenas de segundos, que para ele, nessas circunstâncias, nunca sabe onde pousar os olhos nem com que enganar os pensamentos, que, assim alertados, tornam-se desconfiados, defensivos, e prontamente vestem os esgarçados e insuficientes mas esquivamente pesados xales do devaneio, parecem horas, o médico ergue o braço dele e retira o termômetro. Quantas são? — pergunta Cândido.
Cândido aproveitou a pausa para brandir um último adeus, “Até nunca mais, mãezinha! Talvez possamos nos compreender aí do outro lado. Não precisa me esperar, já cheguei antes de você!”
— Um-um. — O doutor sacode ligeiramente a cabeça para a frente e para trás enquanto examina o termômetro. — Agora,  a retina. Para não ficar louco, claro! — O porteiro abre o frasco e, retirando um conta-gotas, pinga algumas gotas pretas no copo.
Na manhã seguinte não conseguiu sair da cama. E na outra. E depois. Ao todo foram nove ou dez dias de catatonia. Teria sido então que deixou de respirar? Cerra as pálpebras e aperta, imaginando que enfim chegara a hora de sentir a gélida presença dum termômetro em seu ânus cálido e aconchegante. Para que é isso? — Cândido quer saber.
Ainda bem que mantinha dois livros de crônicas no criado-mudo: um do Otto Lara, outro do Paulinho Mendes Campos.
— Abra os olhos. Dessa vez, além da lamparina, o porteiro tem um frasco de remédio e um copo d'água nas mãos.
O mineiro só é solidário na mesa, no restante do tempo e das situações sociais se guia por uma covardia que faz passar por bonomia e uma pusilanimidade que mascara de prudência. O mineiro é antes de tudo um negociador de obséquios. Sobressaltado com a ordem, escancara as pálpebras. Arma a guarda interna enquanto o médico aproxima o rosto do seu. Tenta prender a respiração para escapar da mistura malcheirosa de leite azedo e fubá. Cândido abre os olhos e vê Pedrão e sua indefectível lamparina que não clareia nada. Pensa em perguntar se poderia solicitar os préstimos de Diógenes e sua potente e infalível lanterna, mas acha melhor não. Além do mais, Diógenes só acendia a lanterna durante o dia, quando não havia necessidade de luz artificial.
O médico põe as duas mãos espalmadas em volta do olho direito dele e estica suas pálpebras para cima e para os lados. Ah, você está aí!
Sabia que tua vista direita tá quase morta? Sabia, doutor. Se não fosse um vivo morto de preguiça de viver, explicaria que foi depois que viu papai saindo do banheiro de toalha na cintura e a toalha caiu no chão do corredor.
— Um-um. Cândido desembesta pelo corredor tomado de escuridão, sem saber aonde ir. Só para quando dá um encontrão numa parede e é atirado ao chão. Fica longo tempo entre dois mundos oníricos. Quer fugir de ambos, mas só consegue ir de um para o outro e vice-versa.
Sai pra lá, Dinho. Deixa eu ver o futebol. Do lado no sofá, mamãe-estátua só envelhecendo e engordando. Na escuridão do quarto e da casa e do mundo à meia-noite os estalos secos e angustiantes atrás da porta fechada indicavam que um gostava de bater e uma gostava de apanhar. O toque. Ladrão de nós. Não. Plural incompleto. Indesejável. Ladrão das gentes. Sim. Não. Ladrão de cada um de nós que nos rouba a todos. Ai. Ladrão de mim. Espere! Ainda falta seu pai! Espere!
O negro vácuo noturno se constelava de gemidos carrancudos e Cândido, cabeça entuchada sob o travesseiro, queria não ter nascido. Até que, cansada da surra, mamãe abria a porta do quarto do casal e saía pelo corredor a arrastar os pés até o banheiro e Cândido queria não existir. O doutor volta para a mesa, apanha uma lanterninha, acende, torna a abrir as pálpebras dele com um indicador e um polegar. Mira a luz. Cândido, que já pôs as calças, corre cegamente para a porta, abre-a, atravessa a sala do dr. Sakan. Ainda de costas, o homem no divã chama.
E domingo indefectivelmente merecia celebração especial: almoçavam galinha d’Angola na panela de ferro, omelete de ovos de ganço, arroz com costelinha e, de sobremesa, muita goiabada cascão com bastente queijo branco, tudo regado a baldes de tubaína feita ali mesmo no vilarejo.
— Pode vestir a camisa. Dinho, meu anjo, eu... eu... meu tesouro...
Enquanto chuchava o osso da costelinha, Cândido sonhava com o dia em partiria para Belô e entraria no mais fino restaurante da cidade e finalmente pediria lagosta com vinho tinto estupendamente fresco e voltaria guindado no mesmo sonho, agora ligeiramente etílico. Obedece. Senta-se na cadeira diante da mesa. Mãããããe! — não contém um grito.
Mas quem prevalecia de fato eram os pesadelos, tão reais, que até doíam o estômago. Assistindo a mamãe se afastando grudada na mexirica, Cândido sente na pele as aguilhoadas do remorso ao rememorar os intensos rogos feitos na cama para que a mãe e o pai morressem logo e deixassem que ele tivesse um pouco de paz de espírito. Depois do toque, a incompletude. A integridade, mesmo que paquidérmica, incabível, foi profanada e não pode ser reconstituída. O toque alheio é a prova cabal de que eu todo em mim não é possível, não é mais possível, e requer que seja repetido infinitamente para que nunca voltemos à solidão em que não sabíamos existir. Transgressão eternamente necessária. Ele se agacha e, tateando, encontra a cueca e as calças. Levanta-se de novo e encosta na parede para se vestir. Nisso, suas costas pressionam um interruptor e a luz se acende. Cândido olha para onde está a mulher.
Quem sabe a morte era apenas um ostracismo temporário numa ilha desconhecida, onde um dia voltaria a encontrar as pessoas que amou com todo o vermelho de seu sangue e o que ainda restava de esperança em seu coração?
— Há quanto tempo o senhor disse que tem esse mal-estar? Acho que não vai dar... — Cândido puxa firmemente os quadris para trás, removendo o pênis da boca da mulher e pondo-se em pé.
Um golpe de vento farfalheja as folhas das acácias e suas pupilas se esticam ao céu mecanicamente. Depois do olhar dominador, a que custou todos aqueles longos minutos a se adaptar, tendo finalmente preferido o refúgio da vigilância vazia da estátua, depois do toque violador, eletricamente instantâneo e impositivamente despertante, a voz familiar e  surpreendentemente invasiva. Ele empunha novamente o pênis dele e recomeça a manipulação. O pênis continua lasso. Ela o abocanha e passa a masturbá-lo freneticamente com os lábios.

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