16 – Marinheiro das profundezas

sob o prelúdio de Tristão e Isolda



Ao contrário do marinheiro, Cândido se ocupa apenas das profundezas.
— Uns três meses. Ou seis. Não sei bem, doutor — vacila, receoso de que o médico o repreenda por ser um antiaritmético, um descarado desconhecedor de si mesmo. Tem, sim! Vem, quero ter um filho teu!
O marinheiro não cogita o que jaz sob a superfície verde-prateada das ondas silenciosas do oceano. O marinheiro é o antiadivinho e existem tantos quantos este quanto peixes que têm horror à superfície.
— Além da indisposição, sente alguma outra coisa? Acho que não tenho energia agora...
Pegou o ônibus para Belô, passou a tarde à procura duma joalheria e ao crepúsculo comprou um par de alianças de ouro, pagando doze mil cruzeiros. Franze o cenho. Crispa os lábios, tentando construir uma expressão minimamente convincente de quem executa uma varredura interna à procura das lembranças. Como já tem traquejo — que começou a adquirir desde o primeiro momento da infância de que ainda mantém consciência —, logra êxito em menos de dois segundos. Tem um sobressalto. Jamais lhe passara pela cabeça uma mulher pedindo com tamanha naturalidade para ser sodomizada.
Bete primeiro arregalou aqueles seus suaves olhões de golfinha mentirosa e então desatou a chorar feito uma bebê de baleia que subitamente se descobre órfã.
— Bom, doutor, às vezes uma zonzeira na cabeça. Quer atrás agora? — pergunta, sempre cochichando.
Mamãe-estátua não permitia que Dinho fugisse para brincar na rua sem antes recolher a mesa e, enquanto mamãe-estátua lidava com a pia, enxugar a louça. — Como, exatamente? Cândido solta um grunhido sob o orgasmo. A mão dela, ávida por lhe tirar até a última gota de esperma, aperta-lhe o escroto e ao mesmo tempo espreme a base do pênis. Subitamente exausto e saciado, Cândido amolece os músculos e se esparrama exausto sobre a mulher.
Papai-estátua era absolutamente contra, o que não fazia a mais ínfima diferença. Papai-estátua não tinha nem nunca teve voz para nada, fosse perante vizinhos, perante parentes, perante estranhos, perante, sobretudo, mamãe-estátua. Cândido ainda se lembra remotamente d’algumas poucas admoestações, que foram escasseando à medida que crescia, até desaparecer duma vez. Papai-estátua pensava assim ter-se desincumbido da educação do rebento e pareceu aliviado quando o filho chegou à puberdade.
O lema em casa era PASSAR FOME MENTAL, TUDO BEM, NÃO PODE É FOME FOME. Viciaram Cândido em comida e ele passou a infância pantagruelicamente. Naquela época nem lhe atravessava os inóspitos desertos mentais que um dia se tornaria um marinheiro das profundezas. Agora vem a parte complicada. Não sabe nem como, muito menos nem como exatamente. “Exatamente”, habitante invisível e impercebido da Caverna Absoluta, bomba repentina explodindo com cara folgazã num fragor de múltiplas carapaças a se abrir, num alarido de cacos e guinchos ricocheteantemente reprodutivos, antes de se converter num nada improcessável. Me come! Me come!
Depois da adolescência praticamente parou de comer, consumindo apenas o mínimo necessário para não definhar. Como dizia um de seus escritores preferidos, quem não come não ama nem odeia.
— Não sei explicar direito, doutor. Tudo começa a girar em volta. Então tenho de deitar pra não cair. Até na rua já aconteceu. Não preciso usar camisinha?
Todo abúlico é potencial candidato a marinheiro profundo.
— Algo mais? Cândido está atordoado de prazer e luxúria, cenas desconexas cruzando faiscantes os pensamentos em brasa, crianças famintas, palafitas equilibrando-se miraculosamente num mangue, corpos esqueléticos de judeus sendo atirados em valas. Sente uma fome profunda, uma fome ancestral, como se jamais tivesse comido em toda a vida. Fica zonzo de voracidade, tem ganas de abocanhar, morder, deglutir. Tateia o corpo da mulher, até encontrar os seios. São tetas gordas, suculentas, generosas. Junta as duas mãos em torno duma delas. Começa a chupar. Sente a boca molhada, percebendo que a teta está túrgida de leite. Começa a sugar desvairado. A mulher fica ainda mais sôfrega. Saracoteia debaixo dele. Com uma das mãos espreme o seio, esguichando o líquido morno na boca de Cândido. Com a outra, brande seu pênis, enfiando-o na vagina, tornando a tirar, gemendo alucinada. Cândido sente a baba cálida lhe escorrendo pela boca, pelo pescoço, pelas mãos, encharcando os lençóis. Mama por vários minutos. Logo sente-se empanturrado.
Um dos maiores problemas nessa profissão é a vítima consumir a existência à espera do submarino que nunca vem.
— Ânsia. No peito. Nem sempre. Goza dentro de mim! Goza dentro de mim!
Cândido foi o primeiro moleque da vila e o primeiro aluno da classe a usar paletó e gravata. A meninada debochava, naturalmente, do almofadinha abúlico. Bem-vestido e infeliz, ele não respondia nem reagia.
— Só isso? Quando Cândido se livra das calças, a mulher, sempre manipulando seu pênis e sussurrando com sofreguidão cada vez mais intensa, puxa-o sobre si. Uma língua pressiona voluptuosamente os lábios de Cândido, abrindo-lhe a boca como se quisesse sugá-lo. A mão nervosa o guia até que ele sente os macios grandes lábios duma vagina e a penetração.
Bete não teve nem a decência de desmanchar o namoro pessoalmente. Demitiu Cândido pelo aparelho negro do telefone. Um minuto! Um mísero minuto! E a aliança? ocorreu a pergunta ao ex-noivo assim que desligou. Teria sido truque para ficar com o anel?
—  Caroço na garganta. Uma vontade danada de gritar. Quero ter um filho teu! Quero ter um filho teu!
Cândido nem chegou a se lamentar muito do noivado interrompido sem mais nem menos. O que o agoniava mesmo era não poder mais ver Heleninha. Heleninha era a irmãzinha da Bete. A seguradora de vela. Aquela época nenhuma moça de família podia namorar sem uma.
—  Mas o grito não sai, não é? O pênis de Cândido instantaneamente enrijece numa ereção dolorosa de tão violenta. Atabalhoado, começa a tirar as calças, enquanto a voz cochicha lascivamente perto de sua orelha.
Só depois de levar um chute da Bete foi que Cândido se deu conta. Seu grande amor era Heleninha. A ideia o deixou perturbado por dias. A menina mal saíra da adolescência. Estremeceu. Seria suficiente para que se caracterizasse de, ai Jesus, pedófilo? Estremeceu de novo. Ou será...? Agora o tremor veio gelado. Ou será que só sabia amar por meio de interpostas pessoas?
—  Isso mesmo. Como o senhor sabe? Quero ter um filho teu! Diz que sou reserva moral da nação! — a voz sussurra no tom mais concupiscente que Cândido jamais ouviu.
Não deu lá grande importância à possibilidade de ser um pederasta enrustido. Analisou cada um dos marmanjos que conhecia, desde o pai, passando pelos tios e primos, até os vizinhos. Qualquer um deles, concluiu, era capaz de cair de amores por uma ninfeta, ainda mais uma ninfeta graciosa qual Heleninha. Mas amar por tabela...
—  Fica entalado aqui. Não sei o que me aconteceu. Sempre fui priápico...
Se Heleninha aceitasse fugir com ele... Primeiro, lhe pediria para substanciar um pouco mais as refeições. Estava claro que a menina precisava de Biotônico Fontoura, “o mais completo fortificante”. Ele mesmo crescera e encorpara à base de Biotônico Fontoura, um copinho no almoço, outro na janta. E Heleninha precisava se aproximar um tico do padrão mineiro da beleza feminina, que sempre pendeu mais para o rechonchudo.
—  Fica. Ah, ainda está abúlico — a voz cochicha enquanto a mão chacoalha indolentemente seu pequeno falo manso e caído.
Tivesse tido o brio de procurar a garota e lhe revelar seus sentimentos, teria descoberto que Heleninha, entre outros pequenos vícios, já fumava. E entre os grandes nutria o gosto de queimar os próprios braços com a brasa do cigarro, o que de fato lhe dava “prazer”. E nosso ingênuo herói teria literalmente caído de costas.
— Mais alguma coisa? Cândido obedece. Assim que se deita, a mão começa a alisá-lo de cima abaixo. Cândido, indeciso se são carícias ou uma revista, deixa-se manusear resignadamente. A mão se detém em seu pênis e dá uns apertos ligeiros e suaves, experimentando, tomando o pulso.
—  Falta de oxigênio. Às vezes não consigo respirar. Venha. Deite-se aqui. — A mulher, sempre murmurando, puxa-o com mão delicada mas firme.
Que estupenda namoradinha teria saído a Heleninha depois de alguns dias de tonificante. Talvez fosse recomendável até umas aulas de teoria musical, quem sabe umas palestras de introdução aos grandes mestres da música no coreto da Praça da Liberdade quando a levasse a conhecer Belô.
—  Tire as calças, por gentileza. Cândido dá cautelosamente alguns passos na direção em que pensa estar a dona da voz. De repente bate uma das canelas em algo duro. Arqueia ligeiramente as costas e tateia de novo, agora com ambas as mãos. É uma cama. Alguém o agarra num braço.
Começou a sonhar com a noite em que, sentados no coreto, depois de alguns meses de preleções e ensinamentos, poderia finalmente explicar a Heleninha como seu deu o fim da ária na ópera de Wagner. Ai que delícia! Um brotinho rechonchudo e ilustrado todinho seu. Obedece. Fica de cueca. Venha nesta direção. Basta acompanhar o som do meu sussurro. O caminho está livre. Não tenha medo.
Bons tempos aqueles em que se dava o luxo de se prometer o impossível.
—  A cueca também. Não estou enxergando nada —  diz.
Nos feriados nacionais acordariam às onze depois dum sono férreo e condigno abraçadinhos. Nos religiosos acordariam cedo para ir à missa, pois Heleninha se prontificaria a mostrar a ele o caminho para a retomada da fé. Ainda não decidira se na noite anterior fariam uma ceia leve à base de sopa de cereais, à luz de velas, ou se se entregariam ao balanço do dia e dos sentimentos até caírem ambos no sono. Puxa obediente a cueca pelas pernas até os pés. Cobre o pinto e o saco com as duas mãos. Genitália, hahahá! Quer cair na mais violenta e sacudida gargalhada que já deu em toda sua vidinha sem riso. Pode entrar — uma voz feminina sussurra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário