12 - A anestesia da perplexidade

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

É sábado, sim. Quem nasce errado precisa suspeitar de palavras, dar tino de frases, sempre mantendo a guarda. Não pode ser frouxo, que não sabe o que vem pela frente. Nascer errado é mais ou menos como nascer cego ou nascer surdo ou nascer louco. No seu caso, nasceu tão errado, que nunca sabe se veio ao mundo sem cabeça ou com mais de uma delas. A esse respeito, tem certezas antípodas. Olha de novo a espanhola, quer desenvolver um pensamento uno e cabal sobre ela. Mas o pensamento não se forma no vácuo dentro. E quando se forma, é duplo e auto-exterminante: contraste feito duma cor absolutamente una. Claro! — concorda Cândido, ainda pasmo. — Como não? — É a melhor ideia que alguém teve desde sua chegada àquele lugar.
Pessoa alguma lhe pode fazer mal e faz mesmo assim. A espera é soprar para outro país a nuvem que se forma daquela fumaça e daquele perfume na infância irresolvida em que mora. Sopro irresoluto e frágil como ele mesmo e que não produz senão um imperceptível redemoinho na desordem gasosa. Mas é agora ou nunca. Sopra, sopra, até ficar sem fôlego e parar de esperar e ver que a nuvem desaparece e em seu lugar surge a sombra dum homenzinho indistinto, no alto da cabeça um cérebro incorpóreo em cuja superfície fissuras e veias e inchaços e depressões se digladiam para estabelecer um domínio e fincar no mais alto dos rochedos a bandeira da razão, enquanto o homenzinho, onisciente, com os superpoderes da inexaurível solidão, ocupa triunfante e anárquico a sala de comando da Caverna Absoluta, agora consagrado ser de si mesmo, amigo de sua própria alma, honrado, amável, humilde príncipe defensor do rosto disforme da família de sombras vivas que enfim o acolhe friamente. De súbito, uma alfinetada da ansiedade quando lembra que o médico pode chamá-lo a qualquer momento. Sente que tem algo vital a dizer, mas não lhe ocorre nenhuma palavra minimamente suficiente e digna. Não gosto de sábados, doutor. Porque todos gostam. Será que existe remédio para isso? Fica envergonhado de si mesmo. Sabe que não existe. Posso lhe tocar um trecho duma das minhas peças, se lhe apraz!
Bete voltou atrás. Tinha-se esquecido, apalpou o bolso do paletó e tirou a bola de gude que vem guardando desde os sete anos. Larga a revista que tem nas mãos. Apanha outra. Abre. Tudo está escrito. Em maiúsculas, em minúsculas, letrinhas, letronas intercaladas. Rainha da Inglaterra, Westminster, não sei quê. Rainha faz cocô? Não quero mais fazer cocô, doutor. Tem cocô demais no mundo. E falta banheiro. Só na Índia são mais de seicentos milhões de bípedes sem privada. Já vi de tudo que é forma, jeito, cor, consistência e cheiro. As pessoas são cocô e não sabem. Se todos se olhassem direito no espelho, veriam e saberiam. Este presidente aqui. Este delegado. E acabariam se jogando na grande latrina sem tampa, inodora e oculta que é a morte. Solidário com o embaraço de Cândido, Wolfgang faz uma sugestão.
Arranca a página da revista, amarrota dentro do punho e esconde no bolso da bolinha de gude. Certo, o médico diria, mas alguém tem de puxar a descarga... Será quê... — para no meio da pergunta, indeciso e aflito.
Como faz todas as vezes em que folheia uma revista, tenta decorar os nome das figuras. No centro do consultório há um busto de granito. Lê a inscrição: Dr. Geraldo Ribeiro. Geraldão-estátua colossal de granito-chumbo e fezes, adernando pesada a praça da infância prum lado. Da cabeça da estátua as orelhas parecem sair em forma de alto-falante para perguntar: como pode um presidente se matar? Presidente não se mata. Só quer se matar quem não é nada. Ou é ínfimo. Ou é o que não quer ser e não o que quer ser. Ou não é o que quer ser e é o que não quer ser. Cândido mira Wolfgang, encafifado.
Bem que podia cair no sono, ali na cadeira, dormir para nunca mais acordar. A ideia suscita um terror irracional. E se fosse chacoalhado por um louco e nunca mais conseguisse discernir entre o sono e a vigília? Estátua tem cu? Geraldão tem um cu sob as calças de tergal-granito? É Mosart com “s”, não com z”.
A vigília é brutal. A estátua bem que poderia ser nada mais que um cu — um estrondoso cuzão enrugado a adornar a saleta das esperas desesperadas. Se fosse um cu, poderia, bem que poderia ter o nome dele. Em cima do cuzão, a placa de bronze com a inscrição: Saudoso Eu-cu de imemoriais lembranças. Nascido num dia que ninguém sabe, morto n'outro dia que ninguém quer saber. Nasceu cu e cu morreu. Esta é nossa sincera homenagem a este que foi o mais anônimo dos seres humanos já passados por este planeta. Como assim?
O ruído áspero de ferrolhos correndo atrás da porta lhe atiça as orelhas. Junta as pernas e fecha o paletó num gesto de autodefesa. Lê sem colher o significado das palavras. Borboleta que pousa nas flores e desdenha o néctar. Sente apenas vagamente que o ponteiro do cérebro navega em retrocesso contínuo a um bem-estar que não existe e nunca existiu. Para usar os sentidos que teimam em negar serviço, precisa deter as atividades vitais, traduzindo-as em carcaças expostas sob a luz fria do sono, e esperar até que baixem da estratosfera abissal, pousando feito poeira de letras sobre o chão estéril de pensamentos que não se completam. A custo, imagina que retoma algum controle sobre o que parece ter sentido. Dá então vontade de renascer, agora que finalmente chegou ao deserto dos pré-pensamentos. É com “s”, não com z” — diz o rapaz.
Assim que Cândido batia a porta para dar um passeio à noitinha pelas ruas degradadas e imundas de Belô, mamãe-estátua acendia a vela que mantinha preparada na cristaleira da sala e lá se ia Cândido a perambular concentrando toda a energia em não pensar em nada. O deserto é atravessado por um rio ladeado de placas infinitas indicando direita esquerda direita esquerda, a que vai obedecendo sempre ao contrário. Ocasionalmente o rio deságua um buraco negro, insondável. Pensa em seguir em frente, mas uma força irresistível o empurra e ele despenca, agarrando-se a uma âncora que o leva de volta à tona em vez de afundá-lo. E a correnteza recomeça. Não acredito! — limita-se a dizer. — Bem, deixa eu arrumar a ficha... Wolfgang Amadeo Mozart...
Às vezes delirava em se apaixonar por uma mulher, a quem devotaria cada um de seus dias e cada uma de suas noites. Vira uma página. Lê umas frases encardidas que o fazem sentir-se burro sem saber se deve acreditar nas notícias, analfabeto das palavras e algarismos que o mundo lhe tenta impor como num rito de defloração, o mundo nunca dominado das palavras, sábio estúpido a cobiçar o desvendamento dos fenômenos. Ainda bem, não sou fenômeno, poderia pensar se pensasse. Levanta a cabeça, sentindo-se radiante. Finalmente uma boa surpresa! Mais que isso — uma surpresa divina! Tem ganas de abraçar o rapaz e tascar-lhe um beijo na bochecha, de tão feliz. Se contém. É bom não abusar.
Recostado na cadeira, aprecia os dias da semana paralisados em torno do busto de granito. — O senhor já pode entrar — a mocinha-recepcionista, sorrisinho poluído de gosto amargo embaixo da língua, diz indicando uma porta depois de algumas horas. Mosart.
Nunca a vela queimara até o fim. Ele se levanta, recoloca a revista caprichosamente no mesmo lugar em que a pegara e se dirige à porta indicada. Se pensasse saberia que nasceu para desenvolver incertezas e viver impossibilidades. Que, talvez por isso, sente tamanha indisposição e falta de energia, se enxergando fragmentado, quase podendo ver as partículas de que é formado, dolorido de ficar abaixado no chão apanhando fragmentos que arruma de lado, procurando encontrar uma posição que lhe dê o mínimo de conforto, compor uma forma que faça sentido, todos os dias entretido na mesma tarefa, almejando vagamento por algo que o lembre de si mesmo mas deparando senão com imagens inúteis e exasperantes de pombas que não batem voo e que não devoram mosquitos e que não cruzam nuvens que nunca passam. Parece que está faltando o sobrenome. Wolfgang Amadeo...

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