1- A chegada

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Se vê numa alameda densamente arborizada. As calçadas são admiravelmente largas, ornadas com floreiras em que brotam miríades de flores e cores. Para além das calçadas, feito imaculados carpetes verdes, estendem-se vastos gramados perfeitamente lisos e planos. É uma rua bucólica, quase silvestre, combinando o belo da natureza subjugado pelo trato do jardineiro e sua afiada e ágil tesoura. O lugar evoca as melindrosas cidadezinhas suburbanas dos filmes de Hollywood que, de tão limpas e ordenadas e simétricas, parecem ter sido criadas mais para príncipes e princesas que para gente. Embora cada árvore pareça de fato árvore, cada flor, de fato flor e cada folha, de fato folha, suas formas são duma exatidão que remete a círculos, triângulos e quadrados traçados em nanquim, preenchidos em cores primárias sobre a mais branca das folhas de desenho.
Olha o céu. Cada nuvem a navegar pacificamente é alva como imagina-se seja a asa dum anjo. O próprio firmamento, dum azul puríssimo que mesmo a imaginação não sonha imaginar, completa uma perfeição que de tão extremada ultrapassa a própria perfeição para converter-se em harmonia absoluta. Mas é uma harmonia artificial e excessiva, evidência definitiva de que o belo também requer algo de dissonante para criar a pureza.
Meio atordoado diante da maravilha, leva vários minutos para se recompor. E quando se recompõe, vê-se diante duma casa. Casa propriamente, não: palácio. É uma edificação de quatro andares estilo Tudor inglês em que cada detalhe revela fausto, luxo, pompa e nobreza. Ele procura na memória algo que se assemelhe a tanto esplendor. Lembra-se do Palácio da Liberdade, em Belô, aonde seu pai o levava esporadicamente quando tinha cinco ou seis anos e em cujos jardins passavam as tardes de domingo. Não, o Palácio da Liberdade é um casebre ao lado de toda esta suntuosidade que agora lhe enche os olhos. Embora tenha uma visão apenas parcial da formidável edificação, pode deduzir que se divide por inúmeras alas e átrios. E a imponência não deixa dúvidas: é dentro daqueles majestáticos aposentos que se emitem magnânimas receitas que curam continentes inteiros, se planejam projetos de pesquisa que vão descobrir novas curas para velhas doenças, se urdem as biografias dos homens excelsos especialmente criados para trazer o Bem aos povos e evitar que a humanidade chegue com desconforto ou antes da hora ao Grande Destino, é ali, exatamemente ali que esses genuínos anjos pactuam quais homens devem sobreviver a outros, que se determina a prioridade médica dos aristóteles, jesus cristos, maomés, shakespeares, goethes e freuds da vida. Enfim, é Ali que o Grande Especialista dita as regras que regem este nosso formidável Universo e as reles vidinhas de cada serzinho que tão humildemente o habita.
Por alguns segundos tenta imaginar a beleza das doces recepcionistas e enfermeiras que certamente habitam este paraíso. Seriam branquíssimas ninfas angelicais de loirice dinamarquesa, perpetuamente virgens, monjas detentoras do saber das universidades, anelo inexprimível no sono dos homens que tinham ficado no antigo mundo, sobretudo dos homens da boa e velha Minas Gerais que ele aprendera a amar e louvar ainda criança. Embora sem poder respirar, não pode evitar as lágrimas nos olhos quando pensa em sua terra natal.
Então é com essas monjas que eu sonhava e não sabia, diz a si mesmo, levando um susto ao ouvir a própria voz.
E leva outro susto quando percebe que, mesmo diante da clínica do Grande Especialista, mesmo prestes a ver extinta a suprema aflição física que lhe obstrui o caminho para a felicidade, continua tão assustado quanto sempre fora quando respirava.
Em estado de ascese, algo lhe comprime o braço. Alguém, alguém invisível mas mesmo assim absolutamente confiável, o conduz por entre as macegas e arbutos decorosamente aparados dos jardins. Não sente os pés apoiados no chão de lajotas de pedra mineira. Flutua rumo ao portal do palácio.
Ao parar sob o arco de entrada, sente-se ligeiramente desapontado. Sem saber exatamente por que, esperava que a porta estivesse aberta para ele. Ri em silêncio. Seria pretensão demais. Se recrimina, execrando-se por não ser forte o suficiente para não resvalar para um desses estados de espírito em que pensa merecer do mundo mais do que lhe é devido.
Quando se vê diante da grande porta de duas folhas caprichosamente ornadas em madeira de lei, avista prontamente um sino de ouro, provavelmente ouro maciço. De seu interior pende um cordão. A ponta do cordão é arrematada por uma pedra reluzente — por certo um diamante.
Em estado de graça, cerra carinhosamente o punho em torno do cordão e puxa. Uma delicadíssima, angelical badalada preenche seus ouvidos, ecoando pelas paredes do palácio e pelas árvores dos imensos jardins.
Passam-se dois minutos, cronometrados no relógio. É uma das esquisitices dele — registrar o início e o fim de todas as esperas que enfrenta na vida. Pelo visto continua com a mesma mania mesmo agora que não respira. Passa-se outro período infindável de espera.
Bem, pondera, dois minutos devem ser suficientes. Acho que já posso soar o sino novamente. Torna a fechar o punho ao redor do cordão e puxa — agora com um pouquinho mais de força. Mal senta-se, arrisca um olhar para o rapaz. Tem vaga sensação de que o conhece de algum lugar. Vasculha a mente, procurando lembrar-se. Tenta associá-lo a rostos conhecidos, mas a associação se desvanece sempre que parece chegar perto dum rosto familiar. Desiste. Não tem mais forças para lembrar ou esquecer.
Ao contrário da primeira vez, o badalo do sino produz um tinido seco e agudíssimo. Ele protege os ouvidos com as palmas das mãos, temeroso de ter os tímpanos rompidos.
— Já vai! Já vai! — alguém berra do lado de dentro.
Tem um sobressalto, dando-se conta, sem atinar com a razão, de que não esperava que respondessem. Escuta uma sucessão de estalos secos e metálicos da fechadura sendo aberta. Depois, outra sucessão de estalidos de ferrolhos sendo destrancados. Conta sete ao todo.
— Não pode esperar um minuto? — ralha o mesmo alguém. Dirige-se apreensivo para a porta e entra. O primeiro sentido a se manifestar assim que cruza o umbral é o olfato. Há um forte cheiro de queimado no ar. Algo está sendo ou foi incinerado. Não sabe exatamente o quê. Ciente de que a coragem desvanece, perigosamente aproximando-se do nível zero, ele se apressa a rotular de fantasiosas as terríveis associações mentais causadas por aquele odor. Esta não é hora para imaginar coisas, repreende-se.
A porta se escancara num golpe, pondo à mostra um homem rústico, lembrando um d'Os comedores de batatas de van Gogh. Tem a camisa fora das calças e a barba por fazer. É aquele da voz, Cândido tem um calafrio, lamentando não ter permanecido eternamente à espera.




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