3 - À procura da clínica do doutor Geraldo

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Sem nenhuma razão lembra de Edila, antiga namorada dos seus tempos de rapazola. Inexplicavelmente alegre com a presença inesperada do matuto, decide que é sua chance de tirar a teima. Ainda não se convenceu de que a clínica fica de fato naquele casarão corroído pelo tempo e pelo desmazelo ou se se trata apenas dum engano daquele clínico geral que anotou tão descuidadamente o endereço no papel. Que fim terá tido Edila? se distrai por dentro, grudando os olhos no capineiro do outro lado da rua.
Você não gosta mais de mim? perguntou quando ela disse que ia romper o namoro. Não sei, não sei! Baixa a cabeça e ruma em passinhos aflitos para o recém-chegado. Se detém ao seu lado e observa. O outro parece não notá-lo.
E Edila rompeu. Um rompimento tão seco e abrupto e resoluto, que nunca mais a viu. Depois de aguardar alguns segundos resolve interpelar. A voz não sai. Apenas um cochicho. O outro continua indiferente. Dá um cutucão nas costas do rapaz. Que se volta.
Para seu próprio espanto não tardou a procurar outra. Para espanto ainda maior, não tardou a encontrar. Bete, que conhecia de nome, de vista e de seus olhos. “Com licença”, a voz por fim toma corpo e se articula. “Sabe me dizer se esta é a clínica do doutor Geraldo Ribeiro?” Sente o coração parado.
Seu amor eterno. Mais todas aquelas milhões de fadas por quem fantasia e anseia. O outro parece não ouvir. Cabeça baixa, continua entretido em sua faina de capinar os vãos das pedras. Mas ele percebe que o outro olha de esguelha por sobre o ombro em sua direção. Aparentemente está se fazendo de desentendido. “Responda!” – sua boca libera um brado medonho e ele se apavora com a potência e a dureza da própria voz.
Não pode berrar tanto quanto deseja, pela fadiga do coração e a confusão da mente. Pigarreia. Quer perguntar de novo. Procura preparar uma clave de barítono. Abre a boca, mas tem a língua presa. Fica ali petrificado. Mira o outro, suplicante.
Órfão eterno. O capineiro prossegue indiferente. Parece não querer conversa. Confuso, resvala os olhos-coriscos entre o chão e o estranho que o aborda. De repente senta-se no lugar em que está e faz um gesto com a mão, como que dizendo “Venha aqui sentar-se perto de mim”, mas um gesto intimidatório. Seu rosto assume uma expressão de quem parece prestes a contar uma história. Uma longa história. “Acho que você vai gostar dessa trama”, ele parece dizer. Mas efetivamente não abre a boca.
Confuso, resolve inquirir mais uma vez. Agora em voz de tenor, uma oitava acima. O rapaz baixa a cabeça e encolhe os ombros, estranhamente embaraçado.
Logo se decepcionou com a Bete. Craque em desvendar o caráter alheio, diagnosticou entristecido: mitomaníaca. Nos primeiros três dias percebeu que se tratava duma minimitomania constituída de mentirinhas inócuas lançadas quase a esmo só pelo prazer de ser frívola e pelo que a mentira tem de lúdico. Parecia suficientemente amena para que ela pudesse se desincumbir das tarefas cotidianas mais básicas e ao mesmo tempo manter uma fachada para consumo externo que lhe permitisse um mínimo de aceitação e trânsito social. O rapaz não lhe dá a mínima. Aguarda, meio aflito. De repente o capineiro se levanta e, abrindo os braços num gesto amplo para o alto em sinal de surpresa, exclama: “Ah, é você! Faz tempo que chegou? Por que não me avisou que estava aí? Não lembra mais de mim?”
Com o passar do tempo viu que a Bete às vezes escapava ao controle, inventando umas histórias inverossímeis sobre seu próprio passado e o de seus parentes mais próximos. As invencionices formavam uma trama, se entrelaçando, se combinando, se afastando para se reaproximar, umas parando no tempo, outras correndo paralelas, outras ainda se abrindo em bifurcações e trifurcações. A trama às vezes crescia numa epopeia suficientemente pesada para infernizar a vida de quem tivesse o azar de conviver com ela. No início ele duvidou que fosse capaz de habitar um mundo feito só de mentiras. Dá um passo em direção ao matuto e lhe cutuca o ombro. O outro gira vagarosamente a cabeçorra e olha em sua direção. Estremece, sente o coração, que deixou de bater há anos, disparar, indeciso se vai morrer ou continuar a viver.
Tem frágil poder de captação. Sabe que muitas coisas acontecem à sua volta sem que se dê conta. Se muito, é capaz de se perguntar se essas coisas vale a pena conhecer. Não lhe interessa muito compreender os mecanismos que governam dentro. O sol lá no alto não é a gema da clara estelar. O rapaz se volta para ele sem reagir ou mexer um músculo do rosto. Pousa nele um olhar inexpressivo e opaco como se feito de madeira. Se estivesse caído nas pedras da rua qualquer um pensaria estar diante dum cadáver. É o meu! – não consegue reprimir o assombro e o grito malabafado. Tampa a boca com as mãos e olha aterrorizado o outro, certo de que levará uma enxadada na cabeça por ter dito algo tão sem nexo.
Não pode falar tanto quanto precisa. De todas as vezes em que calou fosse espontaneamente ou pressionado por olhares de condenação, dando-se por derrotado sem sequer aventar a luta, lembra amargurado que aos cinco anos já se achava o super-herói dos derrotados. Tal pensamento lhe provoca profundo mal-estar. Engole em seco e se dirige novamente ao matuto. No céu a gema do sol agora vai amolecendo como nos ovos que sua mãe fritava para ele, prestes a fazer desabar uma chuva amarela e grossa e gordurenta sobre o mundo. Não um mundo qualquer. O seu.
– Por gentileza. Sabe me informar se aqui é a clínica do doutor Geraldo? – sorri gentil. E aponta.

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