2 - A recepção

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

— Que é? — vocifera o homem. Entre! — ordena uma voz da outra sala.
— Bom dia. Como vai? Passam-se alguns minutos, não o chamam. Passam-se outros e outros. Ele decide sentar-se novamente. Duas horas depois imagina que tenham esquecido dele. Levanta-se da cadeira e põe-se a caminhar de um lado para outro na sala de espera. Consulta o relógio de minuto em minuto. Depois a cada cinco segundos. Já perdeu a esperança de ser atendido quando, às 22 horas da noite seguinte, escuta a maçaneta da porta girar e a porta abrir.
Apesar de ter perguntado apenas por formalidade, ele espera alguns segundos para que o homem possa responder. Mas o sujeito continua fitando-o com a mesma expressão de impaciência. Receoso de causar constrangimentos, ele se apressa a explicar: É agora! Cândido pensa, tentando preparar-se para ser chamado.
— Vim fazer uma consulta com o doutor Geraldo. Sou o Cândido. Cândido Franco Brandão. Olha angustiado para o relógio. Onze em ponto. De repente, a voz na outra sala cala-se.
— E eu com isso? Cândido, José, Tobias, para mim não faz diferença nenhuma! Aqui todo mundo é igual e ninguém tem nome. Cândido ouve o que parece ser uma acerba discussão, com vozes masculinas abafadas, cochichos e às vezes urros fenomenais que fazem o chão literalmente tremer. O berreiro vem duma sala contígua. Se aproxima cautelosamente da porta, tentando distinguir o que as vozes dizem, mas não pode compreender coisa alguma — a língua que as vozes falavam lhe é não apenas totalmente desconhecida, mas estranhamente gutural e rítmica ao mesmo tempo. Então uma das vozes começa a troar em inusitada e medonha violência, pondo o teto a estremecer e fazendo chover ciscos de poeira sobre sua cabeça. À medida que a voz troante cresce em volume, a outra voz definha, até sumir por inteiro. O homem que aparentemente triunfou sobre o oponente não arrefece um segundo sequer. Pelo contrário, exacerba-se cada vez mais, como se não houvesse limite para sua ira.
Pô, o sujeito não faz o mínimo esforço para ser polido, Cândido pensa. Acho que a parada vai ser dura. Começa a olhar as paredes, considerando seriamente a hipótese de tacar a cabeça numa delas, quando repentinamente o silêncio se impõe. Atônito, se joga numa cadeira, que cede sob seu peso. Se estatela no chão. Se põe em pé incontinênti e alisa a camisa e a calça.
— Poderia falar com a recepcionista? A ponto de enlouquecer, olha para a porta. Quer fugir mas teme o preço da insubordinação. Se uma simples reclamação quanto a uma porcaria de música já é motivo para tão cruel tortura, que dirá fugir...
— Que recepcionista? Isso aqui tem jeito de hotel, por acaso? Isso é injusto! protesta em pensamento. A única vez em que ousei abrir a boca sou castigado desta maneira!
Cândido, que já estava com o carrapato atrás do apêndice auricular, agora fica decididamente alarmado. Uma centelha de dúvida cruza seu pensamento. Num átimo revive mentalmente a epopeia que teve de passar para chegar até ali. Ó Deus, teria se enganado de endereço? Nem bem emite essas palavras, o volume é elevado a nível quase insuportável, que o obriga a tapar os ouvidos. Em vão. Os terríveis, desastrados acordes fazem vibrar o ar, as paredes, as revistas, o chão e todo o corpo e o cérebro do descorçoado Cândido.
— Mas aqui não é a clínica do Grande Especialista? Assim é demais...
— Aqui mesmo.
Ligeiramente aliviado, Cândido tenta tomar pé da situação. Põe a cabeça entre as mãos, impaciente. Bufa. Bufa de novo. E de novo. Na terceira vez, começa a escutar uma música, a princípio extremamente baixa, praticamente inaudível. Aos poucos a música cresce em volume, até que ele pode identificá-la.
— Com quem posso falar para fazer minha consulta?
— Consulta para quê? Se está procurando o INPS, bateu em porta errada. Está vendo algum guichê de inscrição por aqui?
Um pouco mais calmo, Cândido põe-se a estudar onde está. Vislumbra algumas cadeiras destrambelhadas ao longo duma parede e uma mesinha de centro abarrotada de revistas igualmente velhas. Por força do hábito consulta o relógio. Surpresa! — está trabalhando. Nove e quarenta. Não acredito, pensa. Conseguimos chegar adiantados!
— Pensei que tivesse de preencher alguma ficha ou pegar uma senha, sei lá.
— Pois pensou errado. Não temos essas formalidades burocráticas, não. É tudo aqui ó! — O homem leva a mão à altura dos lábios e brande o indicador para frente e para trás, querendo indicar que ali o dito tem força de contrato legal. — Senta aí! —ordena.
O porteiro está em pé no meio da sala, braços cruzados, tamborilando impaciente um dos pés no chão, sacudindo lenta e rispidamente a cabeça. Num esgar maníaco, tem a boca medonhamente arreganhada para um lado. Se pudesse vê-lo agora, van Gogh ficaria inspirado em dobro. Quem sabe abocanharia a própria orelha.
— Ah! — Cândido exulta. — Então aqui só pode ser. É aqui, não é?
O Tempo se arrasta, quase implorando para parar de vez.
— Pode-se dizer que sim.
Cândido para, arquejante, e aguarda. Deve entrar também? Sim? Não? Sim...? Não...?
— Bem, já que é aqui... e sendo o senhor o porteiro... — Cândido se cala e abre um sorriso tímido, tentando parecer simpático. — Se importaria em me dizer seu nome?
À medida que o Tempo passa, Cândido vai se esquecendo de onde está, para que, por quê. Sente tamanha ânsia de suplicar um descanso de alguns minutos, que às vezes vê-se forçado a cobrir a boca com a mão para conter tão imperdoável insolência.
O homem, dando mostras de que mal se controla para não explodir, sacode as mãos abertas perto do rosto de Cândido. As horas transcorrem qual intermináveis dias.

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