13 - A sinfonia subterrânea

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

A noite vem chegando e encontra Cândido na entrada do palacete com o punho cerrado junto à porta, esperando. A porta se abre e um médico de avental branco e aparelhinho pendurado no pescoço surge à sua frente, de mão estendida. Amadeo — completa o rapaz.
A porta só foi aberta às oito da noite.
— Como vai o senhor? Queira se aproximar, por favor — Cândido pede. — O senhor é... — Cândido procura o nome na ficha. — Wolfgang...
Do alto do escritório no segundo andar, bebericando chá gelado num copo de fundo grosso, assistia ao desfile, coração dolorido, as ginasianas de sainha tergal e cadernos debaixo do braço.
— Bem, doutor. — Aperta a mão do médico, hesitando em explicar que “bem” é só força de expressão, mas prefere tentar deixar a explicação só para si. Ergue os olhos e vê um rapaz vestindo trajes do século dezoito fitando-o sorridente e com uma das mãos erguida à frente. Na outra mão ele segura um violino.
Bete abriu o roupão de pano de toalha grosso e lhe mostrou o corpo nu.
— Pode sentar. — O médico aponta uma cadeira diante duma mesa. É minha! — alguém na fila exclama.
Vem — chamou, depositando o copo de cerveja no criado-mudo.
Cândido nunca teve estômago para bebida e uns goles eram o bastante para sentir a presença do coveiro prestes a cobri-lo da terra úmida. Senta-se e puxa a cadeira uns dois centímetros para a frente. Sem tirar os olhos do médico, que também toma seu lugar do outro lado da mesa, empertiga o tronco e estica a espinha. Acha que está pomposo demais e tenta amolecer os ombros. Se recosta. Aperta suavemente o lombo contra o espaldar da cadeira. Desiste de se recostar, dobra um pouco os quadris, avança os ombros e apoia os cotovelos nas coxas. Tenta relaxar os braços mas não consegue ficar à vontade. De repente percebe que o médico está olhando para ele c’um sorrisinho disfarçado. Cândido dá de ombros. Apanha a folha que encima a pilha de papéis na mesa e começa a ler.
Entra na sala, três ou quatro sujeitos aguardam sentados.
—  Que o senhor sente? Quando Cândido, indeciso se deveria ou não intervir na contenda, faz menção de erguer um braço, dois deles se afastam do terceiro e confabulam misteriosamente por alguns instantes. O terceiro, que ostenta um ar imperial de quem está acima do céu e da terra, cruza solene os braços e olha altivo para o alto. Os outros dois voltam para a fila e berram no ouvido do altivo algumas palavras em alemão. Cândido consegue entender apenas metade das palavras. O altivo aconcheia a mão atrás da orelha, como se não escutasse. Então, sem razão manifesta, deixa-se indiferentemente postar em terceiro lugar.
Bete lhe dá um cutucão no baço e abre seu colarinho.
— “Batatíssima!”. Nada, doutor, quer despitar para dar o fora dali. Agora é tarde. O médico aperta um botão na mesa — um imenso aparelho desce do teto sobre a cabeça dele sob o gemido frio de um motor elétrico e claques metálicos alarmantes de engrenagens se entrosando. Cândido ergue os olhos e observa. Três homens, à frente na fila, digladiam-se para ficar em primeiro. Cada um, assim que consegue passar os outros para trás, é violentamente puxado e perde o lugar. Ao perdê-lo, puxa o que ficou em primeiro para trás. E assim sucessivamente.
A vozinha interna insiste: cara! é a mulher mais bonita de Belô, sim senhor! O furor extinguira-se nele. — Olhe nesta lente, por gentileza. Nada disso! Sou eu! — retruca um terceiro.
Se fosse comigo, comia no ato. Mas Cândido nunca se permitia agir por razões óbvias. Olha. Se vê sob o olhar esgazeado da estátua do dr. Geraldo Ribeiro, que o inspeciona com um microscópio longo de deixar a extremidade traseira fora da vista. Não! Sou eu! — grita outro.
Invejava o Laércio, o ladrão de corações da sua turminha de rua em Belô.
— Não se preocupe. É eletrônico — o médico procura reconfortar. — Capaz  de ampliar as coisas cinco trilhões de vezes. O primeiro sou eu! — um homem berra no início da fila.
Além de grande ladrão de corações, o Laércio era um rematado caloteiro. É o que você precisa, monologa sem voz, chamando-se de você, ele mesmo seu grande e único companheiro e cúmplice, habitante solitário da ilha desolada de si mesmo, aprisionado em seu centro, vedado de buscar as bordas, botando o olhinho aflito e sequioso de verdade na lente do aparelho. Se vê olhando o médico num telescópio e o médico, percebendo que está sendo observado, volta seu telescópio na direção dele e um intenso facho de luz é imediatamente lançado do telescópio contra o microscópio, ofuscando seu olhinho aflito e sequioso de verdade e ele deixa momentaneamente de ser. Solta um suspiro, entre aliviado de não ter de ficar na presença do Jorge e apreensivo com a tarefa que lhe foi atribuída. Vai para a mesa e senta-se. A cadeira é ainda mais dura do que aparenta e em segundos ele já não sabe como acomodar-se.
Estava cansado de lhe emprestar dinheiro a fundo perdido. Não estou sendo, doutor! quer monologar mentalmente, sem êxito. Focaliza algo sem poder definir o que seja, contentando-se em chamar “uma coisa” na sua incerteza, só sabendo que é imensurável, ajustando a ocular do microscópio, começando a ampliar um milhão, um bilhão, a coisa, ao invés de crescer, fica mais e mais diminuta e difusa. A coisa permanece incólume ao poder do superaparelho. Ele abandona a resistência e abre a ocular até o fim. Espia. A palavra RALO se ilumina no chão da Caverna Absoluta em letras rosa e verdes, desprendendo borbulhas reverberantes e ardentes e reflexos opacos. Demônios entoam angelicais os cinco primeiros acordes da Décima. O Ralo se põe a girar. A brilhar. A tremer. Não é uma sala e sim um gigantesco saguão com uma mesinha e uma cadeira de tábua a um canto. Sobre a mesa há uma pilha de papéis de quase um metro. Diante da mesa, uma outra surpresa: uma fila quilométrica, formada de gente de tudo quanto é tipo. A fila se estende ao longo duma das paredes do saguão e se perde lá no fundo dentro dum corredor escuro. Cândido, olhando desanimado a fila, tentando calcular quanto trabalho teria pela frente, nota que cada um dos que esperam tem mais ou menos a sua altura.
Quanto te devo? o Laércio chega perguntando certa manhã.
— Como vai a saúde? Atordoado com tanta secura e arrogância, Cândido obedece sem pensar duas vezes. Ruma para a porta, abre, passa para a outra sala e fecha a porta.
Quando Cândido responde “Cento e vinte e quatro cruzeiros”, Laércio diz, desdenhoso, “Era só pra saber” e sai andando pela calçada até dobrar a esquina, abandonando o credor inerme, c’um medonho travo de desgosto debaixo da língua.
— Bem, doutor. — Procura no rosto do médico algo que o incentive a dizer o que sente. Vá para aquela sala e encaminhe a papelada que está na mesa. — Jorge estica totalmente o braço num gesto marcial, apontando uma porta na parede oposta à da porta pela qual Cândido entrou.
As lágrimas retidas na glândula lacrimal parecem pingar das nuvens em forma de chuva. O médico não facilita. Continua a fitá-lo com pupilas sem brilho inexpressivas. Cândido arregala os olhos, disposto a tomar satisfações do atrevido, mas desiste. Dá meia volta, vai até a garrafa, tira um cafezinho e leva para Jorge.

Cândido fica em silêncio, sem fazer nada. Esta noite assente em envelhecer um pouco. Quer fechar o olho, não é capaz. O Ralo, de repente bem-definido, podendo ser visto integralmente, tem um poder hipnótico básico que parece resumir a experiência de sua vida inteira. Pela primeira vez se vê invadido por uma sensação de unidade. Vaporosa, esquiva unidade. Mexe a língua dentro da boca seca. Tenta engolir. Baixa o olhar para o chão, sente um vazio dentro do vazio dentro da cabeça. Desabafa: Me traga um cafezinho — Jorge ordena, indicando com o queixo onde está a garrafa de café.

Nenhum comentário:

Postar um comentário