11 - O caçula

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Caçula, senta-se na sala de espera e espera. Vê por dentro o estado pré-consulta se aproximando. Quando o tormento finalmente chega ao fim, agradecendo aos céus por ter sido uma peça curta e não os quatro atos inteiros d'As Bodas de Fígaro, abre os olhos e levanta-se. Dá uns passos na direção de Wolfie, receoso de outras surpresas que o homem ainda lhe possa pregar.
O outro esfrega as mãos. É por isso que está agora na sala de espera da clínica. Será que tenho hidrogênio de menos, doutor? gostaria de perguntar. Quer ruir no chão feito um balão murcho para se reencher e recrescer por dentro dum vazio gigantesco quando pensa em formular perguntas outra vez se esvaziando. A expectativa da resposta dispara um míssil sem forma e sem cor que começa a perambular no vazio, ricocheteando nas escorregadias ocas paredes para reverberar interminavelmente dia após o outro. Tudo que há de concreto é feito de ínfimos vazios, sabe, mas não tem certeza se são vazios cheios de nada ou vazios cheios de dor. Cada vazio contém frustrações adormecidas e lembranças sem volume e a certeza distante de que existe num mundo sem regras que a qualquer momento vai sucumbir sob o peso etéreo da entropia. Seus dedos, estendendo-se na direção desse cenário interno, tremem num espasmo intenso incontrolável e ele desperta do devaneio da densa onda na dança do fim. Resignando-se, fecha os olhos, tentando fazer de conta que Deus se apiedou de seu padecimento e lhe removeu os tímpanos. O suor lhe escorre da testa e da nuca, encharcando a camisa. E assim estóico permanece.
Ótimo! Edila é uma catástrofe na memória. Apanha uma das revistas da mesinha de centro da sala. Folheia aleatoriamente. Não consegue, não quer, não vê motivo suficiente para reter a atenção em cada linha varrida pelo olhar opaco. Larga a revista na cadeira ao lado, apanha outra. Os olhos ariscos perambulam pelas páginas, rechaçados eletricamente pelas palavras que criam um campo de repulsa às suas pupilas. Wolfie, brandindo embevecido e sonhador o infernal arco como se quisesse torturar o próprio satanás, não escuta ou finge não escutar. Cada vez mais empolgado, já está na metade da peça, que agora soa como o mais puro, autêntico e esplêndido Ray Coniff.
Todas as suas relações deram num furo n’água. Está debilitado e frágil ao mesmo tempo. Ainda criança e ainda moleque e ainda rapaz e ainda moço e depois homem achava que debilidade e fragilidade andavam juntas feito duas santas poedeiras de flagelos apodrecidos nascidas uma para a outra. Por isso, quando se sente debilitado e frágil, não é de hoje nem de ontem e sim de sempre. Lembra, da última vez que se consultou, apenas duma recomendação do médico: você não pode ficar nervoso à toa. Mas não é à toa, doutor. Então por que é? São as ondas, doutor, quis responder, não teve coragem. O médico ia achar que era louco. Mas louco não sou, disso tenho certeza. É que não sei me comportar, doutor, sentiu vontade de confessar e outra vez perdeu a coragem. Olha, doutor, todo mundo parece que aprende a se comportar direito para cada situação da vida, como se as respostas fossem mecânicas e natas. Eu, nunca aprendi. E parece que sei cada dia menos. Ah, então está ficando louco, o doutor responderia. Isso é loucura, sim. Loucura de camisa-de-força. Não pode ser, doutor. É a lei do mundo sem lei que rege a trajetória dos mísseis de elétrons no átomo em que vivo. Não quer dizer que estou louco, doutor. Apenas errado. Seu Mosart! — Cândido chama. — Seu Mosart!
Sabia que devia fazer marcação cerrada sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa. Nasceu assim errado. Se tem uma certeza é que nasceu errado. Iniciou a contragosto a longa viagem da qual não pode mais escapar. Está sempre voltado para trás dentro, querendo retornar a cada instante aonde nunca esteve. Alternativas, as têm feito desejos pecaminosos que não podem descansar da sina do rodopio em torno do confessionário sagrado, saltando sob o ímpeto de cancelar o ato redentor, ou de ficar parado no banco obcecado pela ideia de consumar a penitência. Será hora de escolher outro destino? Deve agora ser apenas passageiro? Olha a pessoa que está ao seu lado na sala de espera. Uma dona. A custo, decide que é uma senhora. Mais outro esforço concentrado, determina que é uma senhora de meia-idade. Claro, só pode ser. Mais um esforçozinho: cara de espanhola. Buço. Suave, mas buço sem tirar nem pôr. Tem medo de olhar as mãos dela e ver um par de castanholas. Embora castanholas também o assombrem, seu maior receio é que a mulher se entregue repentinamente a um flamenco estridente pela sala e o puxe lasciva para novo rodopio em rodopios ondulatórios. Cândido retesa involuntariamente os músculos e a cadeira volta a dar sinais de que ainda está ali, ainda mais dura que antes.
Sentam-se sob o abajur de franja verde. Quem nasce errado precisa trabalhar dobrado. Ainda no berço desconfiava de ter pela frente uma epopeia. É uma epopeiazona, magnífica em cachos, lanugem e folhas de bananeira. Nasceu às voltas com o troço,  destacando seus dolorosos frutos com o passar do tempo. Naquela época, apesar da constante ideia de pequenez, ainda tinha forças para se olhar e, se olhando, se ver c’um pouco de vigor. Atrás da fraqueza jazia o corpo moribundo carcomido da afetividade. E dos poros amorfos do corpo exalava uma suave e fugidia fumaça de paz e conforto. Ah, a sonata em mi menor K304! — Cândido, que é craque no genialérrimo salzburguês, exclama. Fecha os olhos deliciado assim que soam as primeiras inconfundíveis notas. Tomado dum sentimento longamente esperado de gratificação, recosta-se na cadeira e pela primeira vez pode ignorar a dureza do assento. Mas tão logo Wolfgang enceta a segunda frase da sonata, Cândido nota algo estranho na sonoridade e no timbre do instrumento. Abre os olhos e olha para o músico. Em seguida, para o violino. Vê um cabo. Um cabo conectado a uma tomada na parede.
Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas na cestinha. Quem nasce errado e tem pela frente a epopeia, não sabe fazer outra coisa — tudo se limita a pensar na direção a tomar. Enquanto a paisagem zune lá fora, deixando na janela aqueles frisos de desenho animado, os pensamentos se grudam no sentido que certamente será avistado depois da próxima curva. O dia seguinte nunca deixa de ser um talvez e nada mais importa. Tem até o projeto delirante de crescer e se tornar um homem de caráter. Não tendo seu pai de modelo, claro. Algum tio distante, talvez. Um professor pedante quando ainda não sabia exatamente o que era pedantismo nem para que servia o que lhe ensinavam na escola, tirando uma ou outra função aritmética que cedo pôde relacionar às funções vitais do mundo. Mas todo o resto era tão esmagadoramente aborrecido, um aborrecimento também informe e intangível e do qual se desprendia um perfume enjoado e mortal que ia impregnando as coisas à medida que as ia conhecendo. Wolfie apruma o violino entre o ombro e o queixo e, erguendo o outro braço, desliza o arco por uma corda.

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