6 - O desfile

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

– Um... – o outro leva a mão ao queixo, estudando o casarão. Em seguida direciona os olhos para ele e coça a nuca. Parece desconfiado.
A desconfiança o põe alarmado. Se arrepende. A pergunta parece ter despertado um processo mórbido na mente do capineiro, ressuscitando reminiscências falecidas em outras eras. Ele se arma por dentro, “Vamos ver o que vai dar”. Lança um olhar preventivamente ameaçador para o rapaz e vocifera:
— Se não quiser dizer, não precisa.
O outro se põe a boquejar, desorientado.
— Sei, senhor. – E faz que sim quase imperceptivelmente, pousando a enxada no chão.
Ele tem um sobressalto – não esperava que o outro finalmente respondesse. O assentimento não é nenhuma garantia, contudo, e ele duvida da demonstração de candura. Cândido, que a princípio olhou desinteressado, de súbito sente que está diante de algo familiar. Apura a vista. Não pode ser, pensa, atordoado.
— Ah! Quer dizer que é aqui mesmo? Olham novamente. A mansão, vista do alto, é enquadrada em plano geral, oferecendo ao telespectador um panorama do ambiente em que se dará a ação, tal como ocorre nas primeiras cenas dos filmes de Hollywood. A seguir, o plano geral começa a se reduzir gradualmente, fechando o foco em algum ponto do casarão e expondo detalhes.
— Não é não senhor. — O matuto sacode a cabeça. Agora vigorosamente. Calma. Como vos dizia, trouxe aqui um material que vais adorar. — Dizendo isso, o capineiro aperta uma tecla no controle.
— Oh! — Ele se vê novamente desanimado. — E você por acaso sabe onde fica a clínica do doutor Geraldo? — A pergunta é feita mais por inércia que por crença em que o outro possa, mesmo remotamente, saber tal informação. Rá-rá-rá-rá-rá-rá-rá! Essa até que foi maneira! — o outro solta uma gargalhada evidentemente forçada e dá um safanão afetuoso nas costas do capineiro tímido, quase atirando-o ao chão. — Mas estou cansado dessas cenas de ação, já disse. Quero algo diferente. Grááááhhh! — De repente emite um rugido formidavelmente áspero e intenso, fazendo vibrar o chão e as paredes e obrigando Cândido a tapar os ouvidos para não ensurdecer. — Porra, será que é tão difícil assim?
— Sei, sim senhor. Cândido espreme as pálpebras e meneia a cabeça, nauseado com tamanho sofrimento. A misericórdia também corrompe.
— Ah! — torna a se animar. — E onde é, então?  O capineiro apanha o controle remoto e olha. Cândido acompanha seu olhar, fascinado cuma cena em que uma cidade litorânea na Ásia está sendo invadida por um tsunami. Ondas descomunais tragam casas, carros e pessoas, derrubando prédios, carregando no bojo toneladas de entulho, troncos, mobília, restos de telhados, caminhões. Centenas, milhares de moradores submergem nas águas turvas até não ser mais vistos. Mães são obrigadas a largar as mãos de seus filhos, assistindo desamparadas enquanto as ondas os carregam inapelavelmente. Crianças choram de desespero vendo seus pais arrancados dos galhos de árvores em que buscaram proteção.
Sempre segurando a enxada, o rapaz torce o tronco para trás e aponta. Cândido continua parado em pé ao lado do porteiro. Este às vezes solta um pigarrinho, procurando chamar a atenção do rapaz-homem, que insiste em fingir que não notou a presença de ambos.
Não vá, pai.
— O senhor dobra aquela primeira esquina ali e pronto. Vai dar de cara com a clínica. Não tem erro. Claro que não. — O capineiro dá um sorrisinho sem graça. — Cinco mil anos dessa lenga-lenga já deram o que tinham que dar.
Por favor, paizinho.
Diz obrigado, muito obrigado. Sorri. Não satisfeito, levanta ostensivamente a palma da mão para o outro, reforçando o agradecimento. Está realmente grato. Saber que a clínica do dr. Geraldo Ribeiro não é aquele casarão quase malassombrado lhe dá um certo desafogo. Até então tudo parecia estranho além do suportável. Não teria cabimento um médico tão importante e famoso atender naquela espelunca. Seria mais ou menos como se Deus controlasse o mundo a partir do inferno. Não me venha com cenas de tortura e execuções. Estou farto dessa tralha. Tudo bem que minha paciência seja infinita. Mas não abuse!
Comove-se de ser como papai.
Põe-se no caminho indicado. Finalmente exulta dentro. Se respirasse teria soltado as dezenas, ou talvez centenas, de metros cúbicos de dor represados em seus pulmões. Mais um pouco, desistiria. Persistência nunca foi seu forte. Se não lhe tivessem assegurado que o dr. Geraldo é o melhor médico do mundo, já teria perdido a paciência. Provavelmente nem teria se dado o trabalho de fazer toda aquela viagem cansativa e ficar zanzando pelas ruas desconhecidas. O desconhecido — seja um bairro, um pensamento ou um sentimento — lhe causa amargo desconforto. Nunca teve capacidade ou perícia para lidar com que não lhe fosse familiar. Sempre que experimentou algo de novo, foi com apreensão. Novidades, mesmo que aparentemente alvissareiras, lhe evocam um laivo de tormento, tormento ainda mais incômodo por ser inédito. Trouxe umas novidades aqui — o capineiro tímido diz cautelosamente em voz macia e ponderada. — Acho que vais gostar.
Será que ainda tem tempo de rememorar algo bom? Vê as três, quatro mulheres que conheceu em toda a vida caminhando à sua frente. Não consegue lhes enxergar os rostos, encobertos pelas cabeleiras abundantes. A primeira da fila tem algo na mão. Algo que brilha. Parece um... ...revólver. A segunda, idem, só que segura um... ...terço. a terceira, o que aparenta ser um jogo de costura. Só pode ser uma alegoria, Cândido diz a si mesmo, prontamente desinteressado. Detesta alegorias. Assim pensando, chega à esquina indicada pelo matuto e vira. A quarta... Arráááh! Não toque nesse nome! — Enraivecido, o outro cerra os punhos, retorce a bocarra, morde os lábios, ergue os olhos para o alto.
Está certo, está certo! procura mostrar um olhar conciliador. Outro sobressalto. Por esta não esperava... Peço-vos um pouco mais de paciência. Sabeis o estrago que Cristo causou a primeira vez. Não fosse ele, a humanidade teria acabado há dois mil anos.

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