8 - O dom

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Nasceu com um dom — o dom de tolerar a dor.
— É esse cheiro de bezetacil no ar, doutor. Ei moço!
Não compreende a ira do Porteiro. Um vago pensamento de desistir lhe atravessa a consciência e vai sumindo além do horizonte qual gaivota negra.
— A que cheiro você se refere? Está no cinema. Para variar, filme americano. O protagonista é um homem que tem mais ou menos a sua altura. Coleciona discos do Roberto Carlos. Certo dia um incêndio destrói sua casa, reduzindo toda a coleção de discos a cinzas. Algo que chama sua atenção é que o homem mora em Cantão, China, onde trabalha como barqueiro no rio Sena. É claro que o Sena não fica em Cantão; no sonho fica. Depois do incêndio o homem, que tem sete filhos — Vanderlei, Vanderlea, Martinha, Lilian, Leno, Evinha e Eusébio —, muda-se com a família para uma choça alugada. O único bem salvaguardado das chamas fora o aparelho de tevê, que é ligada assim que a família se instala no novo lar. Está passando uma longa entrevista com um dos carcereiros da Masmorra Eterna, cuja estatura é mais ou menos igual à de Cândido. A entrevista é na casa do rapaz, que mostra sua coleção de vídeos e cedês ao jornalista. O carcereiro indica aleatoriamente uma fita da prateleira e a descreve orgulhosamente. Depois pega um cedê e repete o gesto. É seu xodó, diz, apontando a coleção. Então pega uma das fitas e introduz no vídeo, explicando que o fato gravado naquela fita ocorrera certo dia em que voltava de Belô, onde comprou uma filmadora último modelo. O avião já se prepara para a aterrissagem quando ele avista uma mulher parada no meio da pista, braços abertos, aparentemente uma louca que decidiu suicidar-se com pompa e aquela outra coisa. O piloto não pode evitar, pois uma manobra repentina a essa altura — nos dois sentidos — certamente resultaria num horrível desastre. A louca, que tem mais ou menos a altura de Cândido, está elegantemente vestida com um terno de tweed confortável e prático. À beira da pista há um sem-número de viaturas da polícia e algumas dezenas de homens fardados, todos portando fuzis apontados para a mulher. Provavelmente ainda não decidiram se é melhor abatê-la ou deixar que o avião a esmague contra a pista de concreto. Nesse ínterim, o carcereiro apanha a filmadora recém-comprada e registra toda a cena, sem perder um detalhe. Ao enquadrar a louca no visor da máquina, o carcereiro nota algo estranho nas feições dela e dá um zoom. Não é uma louca, e sim um louco. Um homem! Ou melhor, é o próprio Cândido. Sob o paletó ele traja uma camiseta com a inscrição “Testemunhas do fim!”. O carcereiro aumenta ainda mais o zoom e percebe que sob a camiseta há um volume que parece deformar o corpo do louco. Nesse momento, exclama excitado para o entrevistador, se dá conta de que é uma bomba. O homem está prestes a explodir e ele precisa avisar a polícia para que atirem nele antes de o avião atingi-lo.
Melhor, entende? Não convém.
— Esse. — Funga ostensivamente. — Não está sentindo? Cansado do azáfama, Cândido logo adormece. E, como não ocorre há longo tempo, sonha.
Assim não quero.
— Não. Cândido vira a cabeça para a fila, querendo ver quem é o quarto. Mas a fila não está mais lá. Quando se volta para o trio que se prontificou a interceder com o Maioral a seu favor, eles também já tinham ido. Sozinho e desanimado, Cândido senta-se na cadeira dura, tomba a cabeça à frente, apoiando o queixo no peito, e se põe a esperar.
Então Bete, de surpreendentes seios suculentos, estende a mão.
— Um cheiro constante. Não exageremos — João Sebastião resmunga, afastando-o com um braço e passando rispidamente a palma da mão no rosto. Com ar de nojo, examina a mão para ver se não está suja. — Vamos! — Acena para Wolfgang e depois para Ludovico. E dirigindo-se a Cândido: — Você espera aqui. E cuidado com o quarto da fila...
Cândido faz um esforço atroz para chorar.
— Só aqui ou outros lugares também? Obrigado! Muito obrigado!
Bete jura que jamais deixará seu amor acabar; que resistirá ao seu lado para ser infeliz e celebrará com ele cada momento de felicidade.
Pássaros que deviam estar ocultos sob o telhado do casarão de repente assomam nas calhas e começam a cantar.
— Todos os lugares. Não me larga. Desta vez Cândido não se contém. Agarra-se ao pescoço de João Sebastião e lasca-lhe um beijo na cara.
João Sebastião não mostra reação alguma, como se fosse natural. Como se fosse mulher! Sim, o Concerto de Brandenburgo tem índole feminina!
— Desde quando o senhor sente esse cheiro de bezetacil?
Vamos lá falar com o doutor Geraldo.
Não vá perdoando assim sem mais nem menos quem lhe fez mal.
— Desde sempre. João Sebastião, dando um tapinha amigável nas costas do amigo, põe-se na direção de Cândido e, para alívio deste, diz:
— A misericórdia também corrompe.
Pra começo de conversa, nasceu tardio. Como se não quisesse nascer. Como se relutasse em vir à luz. Às vezes parece lembrar-se de que aguardou até o último segundo. Mesmo no útero parecia ter ciência do Tempo e das funestas implicações da imperícia no trato com o Tempo. O Tempo Maiúsculo. Para ele, esperar até a última fração de segundo foi particularmente significativo. Determinante mesmo. Quando João Sebastião termina sua exposição, o surdo genial lança um olhar inquiridor e ao mesmo desinteressado a Cândido, que pensa: “Ih, tô lascado! Ele não aceitou”.
As pessoas parecem pensar que ser adulto é uma constante.
Talvez seja o que o tenha levado àquela mania estranha. De gostar de ficar prestes. Ludovico não expressa reação alguma — apenas fita o outro ora com impaciência, ora com enfado. O homem do violino elétrico deve ser o herdeiro. Cândido é um sujeito que curte estar prestes. Ainda cedo na vida percebeu que não seria difícil passar dessa dimensão temporal à física. De ser sempre prestes se converteu em ser sempre à beira. Logo viu que poderia ser um homem prestes à beira. Mais apreensivo que nunca atenta a cada um dos movimentos labiais de João Sebastião.
Depois de apertar a campainha, escutar a derradeira contração cardíaca, vai finalmente entrando em terra desconhecida. Não necessariamente dos outros. Meu camarada, escute uma coisa: esta papo já tá me enchendo os pacotes. Estou à beira. Do que quer que seja. Prestes. Ao que quer que seja.
— Você esqueceu de novo que ele é surdo feito uma porta! — João Sebastião afasta-se zangado rumo a Ludovico. Aproximando-se do bonniano, começa a fazer mímica e a berrar para se fazer ouvir, explicando a situação.

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