9 - O ingresso

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Mamãe-estátua gostava de fazer escândalo. Toma vergonha nessa cara, banana duma figa! Banana duma figa era seu insulto favorito. Curtia também amaldiçoar seu futuro e sua prole: você um dia vai ser pai!
Cândido tinha mania de encostar o pé na borda dum ladrilho na cozinha. Parava, matutando se devia passar para o próximo ladrilho. Cismava um tempão. Naquela época não tinha muito que fazer do seu Tempo. Como a maioria dos outros homens, confundia a infinitude do Tempo com a própria infinitude. O Tempo passava. Mas só passava para os outros. Em sua cabeça podia dominar o Tempo discricionariamente. O marrudinho de Bonn, cenho fechado e compenetrado de quem está engendrando os acordes iniciais da décima sinfonia, não dá pelota.
Quando mamãe-estátua desandava a vociferar, tinha gana de botar a casa abaixo. Incendiar tudo, mama-estátua e papi-estátua inclusos. Maiorzinho, começou a parar à beira da calçada em frente sua casa num bairro operário de Belô. Operário, cinzento, sujo, nublado e triste.
— O Ludovico tem de topar. E você fala! — Ele finca o dedo indicador no peito de João Sebastião. — Dando meia volta, chama o terceiro homem da fila. — Ludovico! Ludovico!
Assombrou-se quando viu uma mulher pelada a primeira vez, as tetinhas incipientes, a rala relva pubiana, o brilho de paixão, ânsia e medo nos olhos dela. Subia na mesa da cozinha e encostava a ponta dos dois pés no finzinho do tampo. Olhava pro chão e ficava lá imóvel, fascinado. Mami-estátua olhava se perguntando, por que será que esse menino fica tão fascinado com essa brincadeira boba? Wolfie, encorajado por João Sebastião, que brande afirmativamente a cabeça, finalmente aquiesce.
Passou os quatro dedos no meio das pernas dela, os pelos se ergueram, Cândido se surpreendeu com o efeito e própria capacidade de provocá-lo. Começou a chover, sentiu as orelhas eriçadas pelos pingos palpitando sobre o telhado do quarto sem forro. Um dia a família viajou para o Rio. Belô era uma cidade feia e sem praia. Viajaram para o Rio uma vírgula. Na verdade ainda hoje não sabe que praia era aquela. O pai alugou uma cabine, em cujo interior não se viu mais à vontade do que em todos os outros lugares em que o incômodo do beirismo jamais lhe dava trégua. A cabine ficava encalacrada no meio duma fileira imensa de outras, a se perder de vista dos dois lados, cada qual com uma portinhola verde-garrafa, umas abertas, outras semiabertas, umas fechadas, outras trancadas, umas ocupadas, outras vazias. Bundas de homenzões e mulheronas desfilavam à altura de sua cabeça, tirando finas de seu nariz, gigantes barrigudos, bundudos, tetudos, queixudos, um vozerio incessante e surdamente desesperador, a fileira de cabines às vezes ziguezagueando à sua volta, o ronco sacolejante da jardineira em que tinham descido a serra, ouvidos tampados, tudo acontecendo meio longe e abafado como sempre. Pelas mais sagradas notas que já encantaram os ouvidos dos homens.
De repente a menina se arremessou em seus braços, cochichando com estridência “Te amo! Te amo! Vou ser sua até o fim da vida...” Cândido a afastou abruptamente, assustado com tão intenso ardor. Mas ainda tinha forças para lutar por um resquício de prazer, uma vitoriazinha que fosse. Testemunhando a conversa entre os dois deuses da música, decidindo que aquela é sua chance, típica situação “ou vai ou racha!”.
Tentava fazer a penetração mas seu pinto dobrava, causando forte dor. Será que ela estava apertando a bucetinha? Aprumou um indicador e o meteu com toda a força que tinha entre os gordos lábios à sua frente. A menina soltou um gemido agudo querendo cerrar as pernas, mas agora era tarde.
— Pai, quando é que vamos ver o mar? Que você queria? Nem tive tempo de concluir a partitura. Ele me deu uma passagem precoce pr'este Cu de Mundo!
De repente, acabou. Sentiu o pinto mole e solto no ar. Mais! Mais! ela pedia, impaciente. Papi-estátua engolia sôfrego um copo de cerveja no boteco bordejando o pavilhão das cabines, a mãe assistindo de longe, também esperando. Pudera! Você foi dizer que o mundo estava cheio de barbeiragens, que estava tudo errado, que no lugar d'Ele você faria tudo de novo e melhor, que Ele era indigno do seu Requiem...
Começou a pensar em sua coleção de selos enquanto tentava nova penetração. Ouviu a chuva cessar de bater no telhado. A menina apalpou a vagina com expressão de inspecionar os danos resultantes da operação. Depois duma eternidade ele é agarrado pela mão e rebocado aos trancos, rumo ignorado, trombando cego em barrigonas e bundões fofos, moles, estremecentes, pífios, de repente sente os pés molhados e luta contra o torpor. A beira do mar. Síncope instantânea.
— Não sei não — Wolfie alisa o queixo, pensativo. — Da última vez que aprontei Ele me arrancou o arco da mão e arrebentou na cabeça duma das cantoras do coro, vociferando “Dies Irae” naquele vozeirão de meter medo. E ainda me condenou a este Stradivarius de Woodstock.

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