4 - A aproximação

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Se vê diante duma casa simples, simples demais para seu gosto. Experimenta com os dedos o papel no bolso, outro exame. Puxa para fora e confere novamente o escrito. O endereço é este mesmo, reconfirma confuso. Tem fresco na memória. Não está espantado de ter comparecido. Sendo tão taciturno e melancólico, era fatal que mais dia menos dia tivesse a curiosidade despertada e viesse. Não quer explicar. Faz tanto tempo, aquele dia remoto, o mais ensolarado deles, logo seguido da noite mais clara jamais produzida pelo Senhor, em sua inalcançável sapiência que a ele, reles mortal, brasileiro de pai sem nome e mãe sem dentes, não é dado compreender. Então foi seguindo sem rumo, tateando o caminho tenebroso no fundo breu, a alma, menos que vazia, inexistente.
O casarão, assomando à frente em meio a pensamentos orbitando em torno da consulta, traz lembranças obsessivas da infância. Será? Tudo praticamente às ruínas. Tosco, malcuidado. Não fosse a indicação que deram diria que está abandonado. Examina o endereço pela enésima. Por que tantas trevas, por que tamanha vacância por dentro? Se lembra? Se lembra daquele dia?
Cenas que tinham desaparecido ressucitam, ultrapassando as dimensões normais, se agigantando como se não pudessem caber. Por fora, continua sereno. Olha em volta, vê que é a única casa da rua. Procura algum ânimo no espírito acabrunhado. Deve ser aqui. Mesmo sem poder respirar, sente ligeiro alívio no peso que lhe sufoca o peito. Queria estar impregnado de emoções ricas, alucinado de idéias férteis a borbotar em cornucópia inesgotável e sedutora. Mas a alegria nele só resiste um átimo antes de se deixar solapar por sua anima anticriadora. A lua cheia sob a qual nasceu nunca lhe disse nada. É um corpo-depósito de ossos velhos e órgãos inúteis. Macambúzio e oco, lembra, certa noite foi chamado piedosamente a um canto do quarto escuro, seu quarto, e interpelado.
Se pudesse externar o que lhe ia dentro teria forçosamente de se mostrar estarrecido. Ergue a cabeça e os olhos à procura duma placa indicativa, quem sabe um logotipo, um luminoso. Nada. Noite esplêndida noite estrelada de lua cheia e...
Nunca mais, nunca mais, seu lema particular e intransferível desanda a martelar dentro. Alça o braço para tocar a campainha. Nenhuma. Não resiste a inspecionar a parede. Faz bom tempo não recebe uma demão de tinta. O que não quer dizer coisa nenhuma. Que significado pode ter uma demão de tinta? O mundo está preocupado com bobagens demais. Bem, poderia. Poderia significar, por exemplo, que em sua chegada o dia estava mais iluminado, sob a égide do rei Sol. Mas que pena. Se saiu tão sombrio.
Começa a chover, grossos, abundantes pingos despencando miraculosos das nuvens. Em breve, quanto? inúmeras plantinhas começarão a germinar das sementes espalhadas pelo vento. E então essas inúmeras plantinhas morrerão para dar lugar a outras. E outras. E outras. Deve ter pelo menos uma aldrava, daquelas antigas, pesadas, de bronze ou ferro fundido. Tampouco. Nasceu no verão, provavelmente num dia chuvoso e fértil como este.
Os pingos cessam. Ergue os olhos para o céu. Sente o cérebro sendo invadido e ocupado pelo prelúdio de Tristão e Isolda, a melodia mais fúnebre e ominosa já perpetrada pelo espírito humano. Uma nuvem sequer. A abóbada celeste está coberta por uma espessa camada duma matéria que aparenta ser não gasosa, mas corpórea, pastosa feito um creme diabólico-divino cor de chumbo. E, qual chumbo, pesada, prestes a desabar sobre sua cabeça. Se tivesse visto um firmamento assim, van Gogh certamente não teria pintado a noite estrelada. Mas que belo dia ensoladorado. Quem nasce em dia quente não padece muito durante a queda.
Vendo-se sem saber direito o que pensar sobre o casarão, se agonia. A gana de xingar morre na garganta. Talvez seja apenas uma pensão. Uma nuvem cruza o céu diante do Sol, luz de ouro e diamante a projetar astros prismáticos na parede descascada. A luz vespertina a se esmaecer. Tarde, abençoado interregno entre as frustradas promessas da manhã e as sombras mudas da noite. A noite é bela. Mas pode se tornar um pesadelo se houver um acidente, um pequeno descuido no plano dos acontecimentos. Tudo depende do crepúsculo. Os meio-tons e seus fugidios passos de dança podem, se você tiver sorte, trazer uma viagem mágica à aurora. Ou, se sua sorte não for tão grande, o lusco-fusco e seus contornos enganosos com suas figuras incompletas erigirá um túmulo de translúcido granito ao seu redor e a alvorada levará séculos para chegar.
Se.
Quer suspirar. Assoberbado, tenta afastar os olhos do céu. Incapaz. Nessas situações – que nos últimos tempos ocorrem cada vez mais amiúde –, o jeito é cerrar as pálpebras e aguardar que a comoção se extingua por inércia qual cãimbra inesperada e inexplicável. É o dia do seu nascimento. É, sim.
Ao redor um mundo desabitado, sequer um único representante da vida, uma erva daninha, uma mosca, um verme. Uma vez mais a ilha do Tempo. Leva as duas mãos ao peito, aperta – nada. Longos segundos de espera. Retoma o estudo do casarão. Que é que temos aqui? – fala em tom cordial, querendo se apaziguar consigo mesmo, ainda comprimindo o peito. Pose de quem roga piedade. A si, seu verdugo. Pedido concedido. Mais um dia, novo renascimento.
Enxerga o mundo com olhos de vidro. Ao lado da porta há uma janela. Trancada. Do lado da edificação, acácias. Sob as acácias, sombras. Seus olhos vítreos começam a reparar nos detalhes com maior atenção. Desmazelo. A equipe de manutenção deve estar em férias há anos. Os interstícios entre as pedras da entrada guardam uns matinhos, que na Europa, nos tempos de seus deuses particulares, Bach, Mozart, Beethoven, Wagner, Mahler e, em menor intensidade e gana, Schubert, Brahms, Schumann, Mendelssohn, denominavam-se ervas daninhas. A contragosto, ressabiado com pensamentos que se intrometem em sua cabeça, continua a tirar registros:
Limo na base da parede
Teias de poeira nos vãos
Tinta comida pela ferrugem na grade da janela
E outras marcas menos evidentes de desleixo.
Uma campainha soa. Como, se ainda não tocou?
No meio da bruma quase que nunca ouvia a voz aguda desculpando-se.
Ao lado da porta há o que parece ser uma tabuleta que foi recoberta por uma camada de caiação. A cal esfarelenta em alguns pontos deixa entrever uns dizeres. Mas é impossível distinguir ao certo o que está escrito por debaixo.
A mesma campainha soa outra vez. O estátua jaz sentado na cama no quarto. Ao redor dele coleções de botões de futebol, único gosto herdado de papai-estátua-cadáver, figurinhas, um álbum de figurinhas, livros da escola largados aqui e ali. O estátua folheia o álbum, desinteressado, absorto, apenas ciente de seu próprio imenso cu que na maior parte do Tempo que nunca passa parece ser a única coisa que existe neste mundão esquecido dos homens e mulheres de cera. Por onde andarão os pensamentos estatuais? Será que sabe? Começa a chover lá fora. O estátua não percebe. Não percebe a maior parte de tudo que acontece em sua vida. Vive atarefado às voltas com os acontecimentos a ocorrer a todo instante dentro. As nuvens passam lá no alto. O estátua jamais olha para elas. As árvores dão folhas e flores lá fora. O estátua sabe remotamente que existem. Tudo poderia ser um sonho. Para o estátua é apenas um instantâneo eterno. Será que a culpa é minha? se pergunta mentalmente, uma pergunta de significado terrivelmente cristalino e resposta terrivelmente angustiante.
Espera não ter de esperar. Muito, corrige-se. Aproximando o rosto da tabuleta, percebe que poderia facilmente raspar a cal com a unha. A campainha de novo. É papai-estátua em sua poltrona na sala vendo tevê. O granito grafite de papai-estátua reflete irisada a luz doentia do aparelho. Está passando um jogo de futebol. Um jogo de futebol interminável. Parece ter começado no dia em que nasceu. Raramente algo digno de nota acontece no jogo de futebol que papai-estátua assiste sem parar. Mais raros ainda são os gols. Mas mesmo quando há gols, mesmo nessas horas, papai-estátua não se emociona. Papai-estátua nunca ou quase nunca se encanta nem se fascina ou se comove. Invibrável. Fica lá, estátua com cu e tudo em sua poltrona-estátua, olhar morto colado magicamente na tevê, esperando a morte chegar. Sem saber que, ou indiferente se, ela já chegou.
De repente se flagra aturdido por um odor agônico de mar. De onde virá? Seria manobra? Deus é um brincalhão e só existe para quem sabe brincar. A idéia de deus se resume a um folguedo pueril que entretém serezinhos pueris mergulhados em medos e instintos abissais. É tão claro, assombroso que nem todos vejam essa verdade granítica. Pois ele também está mergulhado, exatamente como todos os demais serezinhos, mas é capaz de ver. Não que faça diferença. Não se acha acima dos outros por isso. Pelo contrário, sabe-se defeituoso. A fé num ente divino faz parte da natureza deles. É apenas mais um sentimento pelo qual toda a humanidade comunga. A religião é a liga química que faz de todos um só rebanho complacentemente satisfeito em pastar, mugir e peidar enquanto a existência não é suspensa. Pena que ele mesmo não saiba participar da grande brincadeira. Se pudesse, se soubesse, sairia a grunhir desvairado pelas ruas de sua cidadezinha mineira, seria o canoro de voz mais aguda e vibrata no meio da manada. Será que devo? Ato contínuo se recrimina. Deixe de ser curioso, ralha rispidamente dentro, sem coragem de acionar a voz. Não gosta de ouvir a própria voz. É por isso que evita falar sozinho. Tem vez, se esquece, resmunga um daqueles milhões de resmungos que costuma rezingar em pensamento e leva um susto. Quem disse isso? Eu? A autocondenação mental o perturba. Sempre o perturbou. Ninguém é ou foi mais rigoroso com seus defeitos e neuroses do que ele. Se pintaram a tabuleta foi porque não querem que seja lida, seu burro imbecil retardado. Perfeitamente lógico. Uma raspadinha só faria mal?

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