7 - A derrota

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Às 6:30 da manhã ele estava certo.
— Olha, me chame do que quiser. Zé, João, Mané, Gregório. Aqui não damos grande importância à burocracia. Vocês que chegam a primeira vez são tão cheios de ideias fixas. Me chame simplesmente de porteiro. Ou batateiro, já que se amarra tanto no coió do van Gogh. Me chame do que quiser, seu fricoteiro duma figa! Passam por mais uma centena de portas. Vez por outra o cara-de-batata estaca, ergue a lamparina, estuda a porta, abre e torna a fechar, cada vez mais irritado.
Por três dias Cândido luta bravamente para não ficar chocado. Jamais pensou que chegaria a escutar alguém chamar seu divino, seu sublime mestre holandês de coió. Uma outra centelha de alerta lhe cruza o cérebro. Como cargas d'água o homem sabia de seu apreço pelo maior pintor de todos os tempos? A muito custo mantém os músculos do rosto inertes.
Não está vendo que é a porta errada? — o porteiro rosna, retomando a caminhada. Quando acorda, dá com o vulto à sua frente no corredor.
— Que tal Pedro? — arrisca. Que foi que houve? — Cândido sai atrás do outro. Bete está vestida de noiva, com véu e grinalda.
— Que seja. Entram. O lugar está na penumbra. De repente Pedrão dá meia volta e arranca apressado para o corredor.
— Pedro Porteiro? Não precisa bater? — Cândido espanta-se.
— Pode ser em minúscula mesmo, senhor. Cândido sai da letargia em que caiu na última meia hora e olha em volta. Nada de especial. Apenas uma porta, bege ou de outra cor qualquer indefinível, empenada, tinta descascando. O porteiro gira a maçaneta e abre.
Será que precisa pagar alguma coisa?
Cândido estreita os ombros, mantendo-os encolhidos por alguns segundos e abrindo as mãos com as palmas para baixo em sinal de submissão. É aqui.
Começa a matutar sobre a próxima pergunta a fazer. Repassa mentalmente as palavras com todo cuidado para não cometer outras gafes. Ao mesmo tempo estuda discretamente o porteiro, entre curioso e ansioso por identificar algo na expressão ou na roupa do sujeito enfezado que o ajude a determinar de quem se trata. Finalmente, depois do que para Cândido pareceu ter sido a Coluna Prestes multiplicada por cem, Pedrão comanda:
— Por aqui, sua besta!
Terminando a análise geral e passando aos detalhes, Cândido admira-se em ver que o rosto do sujeito está recoberto por uma grossa camada de maquiagem. Parece até uma máscara. Os olhos estão fortemente delineados por rímel e os pomos realçados por pó de rouge. Em alguns corredores mais curtos, o porteiro dobra uma esquina e desaparece da vista de Cândido, que aperta o passo, aflito.
Na ânsia de capturar tudo não captura nada. Por um instante a luz dentro fica rubra de tanto iluminar, no momento seguinte queima, exausta, o deixando cego. Cândido já começa a estudar os cabelos, quase convencido de que são peruca, quando o outro convida: Cândido olha o relógio. Parado. Deixou de funcionar no momento em entrou naquele... antro.
— Vamos entrando, homem! Pode não parecer, mas aqui tratamos o freguês com cortesia. — O anfitrião se põe de lado na soleira da porta para dar passagem ao visitante — se é que se pode chamá-lo assim. O cara-de-batata o conduz por corredores e mais corredores, saguões e mais saguões. Às vezes vocifera “Vamos! Mais depressa! Ele marcou às onze em ponto!”
Cândido tem um estranhamento. Sente-se conformado com a humilhação que o outro lhe impõe. Em outros tempos não levaria mais de uns segundos para se rebelar contra quem quer que tentasse comandá-lo; agora simplesmente abaixa a cabeça e segue os passos do homem; parece não se importar mais com fazer parte da correnteza.
Cândido tem um sobressalto ante a perspectiva de passar por aquela grande porta de duas folhas talhadas em madeira de lei. Está meio apreensivo — e ser chamado de freguês num consultório não melhora as coisas em nada. Olha para os lados sem saber direito o que fazer. Ainda não sabe que suplícios divinamente cruéis sua insolência lhe ensejará.
As mais formidáveis descobertas, as fazemos em nós mesmos. As mais perigosas que deixamos de fazer, também.
— Vai entrar ou vai ficar aí parado o dia inteiro!? — Num urro nada terapêutico o porteiro extravasa algumas gotículas do que parece um mar de impaciência. Quer conhecer pessoalmente o atrevido que ousa pedir-Lhe uma audiência.
O estranhamento produzido pelas convulsões dentro incomoda infinitamente mais que a apreensão das temíveis perspectivas fora. Como se tivesse levado um pontapé instintivo, Cândido salta à frente. Entra.
O porteiro bate violentamente a porta, passa a chave na fechadura, tranca os sete ferrolhos a cadeado e enfia o chaveiro num bolso das calças. Quer falar com você.
Em circunstâncias agônicas como esta em geral costuma buscar algum alívio apelando mnemonicamente aos raros momentos dourados da infância. Recurso que agora não lhe ocorre.
— Desculpe perguntar — diz candidamente Cândido, tentando não alimentar ainda mais a ira do porteiro. — Para que tantas trancas? Tem muito assalto por aqui?
— E...? — O outro faz, pondo-se em pé.
Não mais se enxerga uma ilha, uma ilha inacessível aos desconhecidos invasores dos diversos continentes.
— Pode-se dizer que sim. — O porteiro faz um sorrisinho enigmático. Cândido demora alguns segundos para dissipar da mente a cena do aeroporto com o carcereiro e a louca. Esfrega os olhos e vê.
O que é que você está vendo? pergunta alguém invisível em voz de gênero indefinível mas seguramente emitida por lábios pintados a batom carmim. A pergunta é acompanhada dum cacarejo frouxo que une escárnio e compreensão.
— E essas trancas são para impedir que entrem? — Cândido insiste, mesmo correndo o risco de receber outra resposta maleducada ante tão panglossiana indagação. Normalmente faria qualquer coisa para não dar vexame, preocupação que, entre aliviado e surpreso, percebe já não ter.
—   Falamos com o Homem — Pedrão diz sem abrir a boca, qual um boneco de ventríloco órfão de seu ventríloco. — O problema não são os que querem entrar... — ajunta com candura. Alguém o chacoalha pelo ombro. Ele acorda.

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