5 - A viagem

sob o prelúdio de Tristão e Isolda


Essa primeira letra parece um ele... ou um i maiúsculo. Essa outra, um ême...
Não. Não é agora que vai bancar o bisbilhoteiro. Abana a cabeça satisfeito por ainda conservar a velha prudência mineira. A campainha mais uma vez. Aparece mamãe-estátua – mamãe-estátua com cu e tudo parada diante da pia na cozinha lavando louça. O granito igualmente cor de grafite de mamãe-estátua reluz nas superfícies arredondadas mas os olhos estão opacos. O rádio emporcalha a atmosfera cuma daquelas canções bregas de que mamãe-estátua tanto gosta. A água corre abundante da torneira. O entrechoque da louça e talheres na pia produz o som mais familiar e reconfortador que possa haver. Mais até mesmo que o da Décima, por alguma insondável razão sucumbida algures sob uma das gigantescas rochas inamovíveis de seu espírito.
O perfume agônico do mar é cada vez mais inebriante e arrebatador. Ele quer se safar. Nas inúmeras vezes passadas em que se deixou abduzir foi inundado duma nostalgia mórbida, tão mórbida que mal aguenta lembrar. Cheiro do mar da Praia Grande. Sentado no banco traseiro do Belair 56, papai-estátua-cadáver ao volante, mamãe-estátua-maravilha de cara fechada ao lado, o vento carregado de sal varrendo suas mágoas, trazendo fantásticas promessas de surpresas. Sente-se doente de melancolia. Sufocando a bomba de entusiasmo que implode dentro, quer partilhar as promessas alvissareiras com papai-estátua-cadáver e mamãe-estátua-maravilha. Não pode. Não sabe como. Papai-estátua-cadáver tinha dia olhava para ele com ar compadecido. Será que sabia? Teria ele também tido um papai-estátua-cadáver? Era muito provável que sim. Ambos tinham, ele sentia, ambos tinham o mesmo brilho melancólico no olhar. Ou melhor, a mesma falta de brilho. Um olhar sem brilho é muito pior que melancólico. É morto. Morto e móvel. Arrastado por mamãe, papai nunca faltava à missa aos domingos. Puxava o terço todas as noites. Não invocava o nome de deus. Nunca. Nem blafesmava. Sequer deixava escapar um palavrão, mesmo que fosse apenas um desses escatológicos que todos proferem centenas de vezes por dia para provar a si mesmos que são limpos. Mas papai não o enganava. Também não era membro honorário do infinito rebanho apascento. E, assim como ele, devotava um profundo, um inefável desprezo por aquela gente vocacionada para o abate. Um desprezo tão profundo e inefável, que ambos só podiam se entreolhar, um olhar assustadiço carregado de desespero, e ao mesmo tempo calar num mutismo tácito. Qual um aleijão, nasceu descrente. E não é apenas duma entidade suprema que descrê. Bem que queria acreditar em outras coisas em que a maioria acredita. Todos são tão cheios de princípios e verdades e lições e lemas fulgurantes. É como tudo tão fácil. Precisam de algo mais? Não, têm tudo que lhes basta e apetece. Humildes e cônscios da relva verdejante ao redor, trocaram a Grande Verdade por corolários amostra-grátis. Que lhes importa que haja ou não Alguém por trás de tudo? Querem é ser felizes. Só os tolos se deixam imolar por especulações metafísicas. A fé cega nada tem de metafísica. É apenas uma admissão quase deliberada das limitações emocionais e biológicas da raça. Tendo dentro de si aquele cheiro de mar avassalador, não sobra lugar para a ideia de deus. Não que seja um consolo tampouco. Quando o cheiro desaparecer virá outro estado doentio. Já se acostumou. Com o ciclo, não com o padecimento. Deus só existe na medida em que faz dele um marionete experimental. Estará sendo personagem de algum autor que não ele mesmo? Será um boneco nas mãos dum deus brincalhão? Do... Forjador? Quando o Forjador quer arrancá-lo da angústia do presente envia assim sem mais nem menos aquele cheiro de mar. Nessas horas pode até sentir os siris a lhe picar os dedos dos pés. O Forjador é mestre em seduzi-lo. Paroxia.
A próxima, pelo jeito, será a Bete, pensa entre esperançoso e nauseado. Teve sorte de encontrar a Bete. Por uns dias se entregou a um estado autocondescendente em que as noções básicas da existência eram regidas pelo princípio do destino. A Bete tinha de ser sua. Ele tinha de ser da Bete. Moça direita. Moça de família. Ele podia ser ou deixar de ser o que fosse mas não ingênuo a ponto de desposar uma mulher que não fosse de família. Não, ninguém pode ser tão tolo. Quando se conheceram ela contou que perdeu a virgindade numa brincadeira qualquer de criança, com uma priminha na banheira ou algo assim. Oficialmente virgem.
Ele arregalou um pouco os olhos, fuçando dentro o que responder. Não sabia se queria uma mulher que não fora deflorada por outro. Há qualquer vantagem nisso? Homens de senso prático, homens pragmáticos, homens cum sólido senso instintivo da sobrevivência, que de fato sabem onde o galo canta – e, sobretudo, são convictos de que o galo deve cantar em algum lugar – provavelmente sabem. Passada a surpresa – ou teria sido um choque? –, procurou forjar uma expressão satisfeita fora. Era bom não arriscar – talvez Bete quisesse encenar o ritual da donzela predestinada. Em Minas sempre é bom ter cuidado com essas coisas. Dá de ombros, ainda contrariado, tentando uma autossimulação para se enganar. São detalhes. E detalhes não têm importância. Faz que sim com a cabeça, olhar grudado na porta, concordando com as próprias conclusões.
Não adianta discordar, afinal. Por incrível que possa parecer só chegou a essa conclusão depois de adulto. Não, não adianta discordar de dentro. É inútil. Contraproducente. Doentio. Doloroso. Autoverdugo e autossoldado, a mesma coisa. Resignado, meio chateado com o descaso daquele médico com os pacientes, decide-se. Já que não há campainha, o jeito é bater. Prepara o ânimo, ajeitando, manipulando. Poucas coisas há na vida mais estranhas que bater em porta alheia. Retesa os músculos dos ombros. Vejamos o que temos aqui. Que casa é esta?
O cheiro de mar desaparece por sob o crepitar distante dum incêndio. Terá o céu entrado em combustão? Não, deve ser a fogueira de suas mágoas. Às vezes começam a queimar espontaneamente e de sua existência o único sinal é o crepitar que produzem. Em geral dura até o dia seguinte.
Se empertiga. Levanta o braço. Enrijece os músculos. Fecha o punho. Avança o nó do dedo médio qual um aríete. É nessa preparação gestual que está, prestes a bater na velha e pesada porta da qual, não pode deixar de notar em sua irritante mania estetizante de perfeição, se desprendem múltiplas camadas de esmalte de antigas eras, é nessa preparação gestual que está quando escuta vagamente uns passos descendo a rua. Sente o braço ser puxado como que por um punho invisível. Tímido, consente.
Seja o que for, está certo. Detém o punho no ar. Gira o pescoço para ver quem passa. Por mais alguns segundos, salvo da premência de se decidir.
Sendo mineiro, sua crueldade se limita à mesa. Qual uma barcaça de mil toneladas abarrotada de mil toneladas de suprimentos, constituídos dos alvíssimos queijos de minas, dos ovos de pato e de ganso e das goiabadas iridescentes dos mil quintais de sua infância, aderna se afastando da porta carcomida e gira lentamente em direção à rua. Os passos que escutou são dum rapaz com pinta de roceiro e o olhar vazio dos jecas de inefável solidão que vivem da capina. Cansou de ver em sua aldeia rodeada de montanhas aqueles olhos solitários vagando perdidos em busca de nada, refletindo nada senão uma dor indizível. A dor de ser bovino. O rapaz traz repousada num dos ombros uma enxada. Assim que chega à altura do casarão o capineiro desce seu instrumento de trabalho e se põe a carpir uma touceiras de mato ao longo do meio-fio. Ele apenas olha, tomado de perplexidade.
O tilintar da lâmina de ferro da enxada contra uma ou outra pedra enterrada sob a superfície da rua o traz de volta do barco imenso e pesado, que por instantes se perde em meio a uma neblina. 

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