10 - Revolução, evolução, involução

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

O casal teve o primeiro filho. O pai, que se entregava, não tinha direção. Um dia a mãe o leva ao médico. Ei, Wolfie, que tal se a gente chamar o Ludovico e nós três falarmos com o Homem? Se formos juntos, Ele pelo menos concordará em nos receber. Bem, pelo menos imagino que concorde.
Ao menos citasse nome, data, um lugar. Senta-se num banco. Ele, noutro. Põe as duas mãos na mesinha do centro, calcula a beira do precipício. No chão, os pés estão desconsoladoramente prontos para escorregar, queda final iminente. Cândido, fazendo novamente cara de resignado, explica o que deseja a João Sebastião. Mas desta vez explica com tamanha ênfase, empresta tanta dramaticidade às palavras, que João Sebastião, condoído de sua infelicidade, puxa Mosart pelo braço.
Range a porta, ele apagou a luz, deitou-se e parecia dormir, um devaneio antes do sono não dá para resolver a vida. A mãe apanha uma revista, ele, um gibi. O Tempo fica sem passar uma eternidade. Então ele é puxado pela mão. Em pessoa! João Sebastião Bá! — o gorducho exclama ao escutar que pronunciavam seu nome, aproximando-se. — Às suas ordens!
Abrir uma porta pode ser o fim. Está vestido com seu calção de jogar bola na vilinha, seu único alívio. Alguém — ou algo — vem se aproximando às suas costas num movimento espiral insinuante. Suas orelhas entram em alerta, evocando um estado sensível. O médico é sério e ameaçador como todos os médicos. Enfia dois dedos na boca. Não me diga que é o João Sebastião...
Se casara para se ver livre da solidão e um mês depois se deu conta da inutilidade. Tira o dedo da boca, menino, ralha a mãe. Aí não posso ajudar. Quem sabe o João Sebastião ali... — ele indica com o dedo o segundo na fila, um senhor gorducho de peruca branca.
Criança, se achava um Grande Defeito, adulto, era insciente da própria existência. O grande pavilhão interior onde é encenado o teatro da cabeça se põe a tremer sob a vibração produzida pela dança ondulatória de véus densos ornados de números e letras daquilo que se aproxima imponderável por trás. Wolfie fecha instantaneamente o semblante. Meneia a cabeça.
Quem dera fosse apenas um homem amargo. É puxado na direção duma cadeira. Senta-se. Quer sentar no colo dela, mas o médico aponta imperativo uma cadeira ao lado. Esquece de si. Obedece. Dar umas palavrinhas...
Teriam existido auto-assassinos antes? A mãe começa a falar. Fala. Fala. Fala um Tempo infindável. De quê?
Que força destrutiva é essa? Olha apático pela janela o céu azul palmilhado de resquícios esbranquiçados. Escuta. Não sabe de que nem de quem ela tanto fala. Eu gostaria de...
Lá fora, o dia se incendeia, dentro, as unhas espessas e pontiagudas se cravam aflitas no que lhe restou da alma. Está vestido com a roupa da missa de domingo na catedral onde se vê cercado de inimigos-estátuas. O Tempo para de novo. Então o médico diagnostica: Claro que Ele é o Chefão. Que é que o senhor quer d'Ele?
Não é vida e sim guerra. Nasceu errado. É ele o Chefão? — Cândido cochicha, estudando a reação do outro, atento a qualquer sinal de perigo.
A Grande Impostura. Quem nasceu errado? Ele xinga por dentro. Tua mãe, tua avó, a puta-que-te-pariu, o Zeca, a Virgília? O Chefão? — Mosart espanta-se.
Nos almoços domingueiros papai-estátua e mamãe-estátua tomavam cada um um copo de vinho Sangue-de-Boi do garrafão de cinco litros que podia durar meses coberto de pó debaixo da pia da cozinha, ninho inextinguível de baratas. Como, errado, doutor? A mãe quer saber solene. Fico-lhe muito agradecido, seu Mosart. É sobre o doutor Geraldo...
Tateia a terra árida do jardim sem plantas. Sonha. Erradinho, pobrezito. Erradinho da silva xavier. Wolfie Amadeo Mosart às suas ordens! — o outro exclama, receptivo. — Se eu souber a resposta à sua pergunta, dar-lha-ei de bom grado!
De alguma forma, não começou. E acabou. Às vezes acorda como se dormisse sem sono, alertado por um invasor. Longe e dentro ele tem infinita consciência do Ralo em torno do qual giram ele, sua mulher e seus dois filhos. É um buraco precariamente tampado com um pano xadrez plissado diáfano, duma precariedade dolorida de melindrosa, prestes a se abrir para repentinamente sugar tudo pelo que ele luta e sonha. Cada dança é um dia sem solução para o interminável período iniciado no instante do despertar e que provavelmente terminará quando ele terminar. E ao término, quando se deita para dormir, sente-se grato por ter encontrado uma solução para aquele dia, mas apreensivo porque amanhã o vácuo entrecortado de luzes e sons que é a vida recomeçará. Ondas e mais ondas flutuando em torno do Ralo que lhe drenam a energia como se lhe lavassem as proteínas e vitaminas do sangue. Seu Mosart, já que ficamos amigos... — Cândido atreve-se a dizer, olhando esperançoso o outro — gostaria de lhe fazer uma pergunta.
Procura avançar como que a seguir os trâmites legais da existência. Os acordes iniciais do Ralo nascem distantes e vagos e vão se encorpando num crescendo. É a Décima Sinfonia, a sinfonia do Ralo, pensada pelo Beethoven surdo conhecido do mundo, vertida para o papel por um Mozart agudamente cônscio da inevitabilidade da morte que o Tempo levou antes que ele pudesse sequer se aproximar de seu apogeu e orquestrada por um Bach finalmente exausto de enaltecer Cristo perante reis para se ater, ó imensurável doçura, aos sons e fúrias da Vida e do Tempo. Desesperado, Cândido não tem alternativa senão segurar-lhe o braço. E com tamanha força, que espera uma queixa de Wolfgang. Mas este se limita a fitá-lo, um sorriso inocente nos lábios.
Mamãe-estátua ficava deliciada quando ele devorava a comida do prato feito rato magro. Vai ao médico. Acompanhado da sinfonia do Ralo. A sinfonia sempre o acompanha. É o que tem de permanente em si e de constante em sua existência. Sabe que não é seu autor. Mas sabe também que seus três deuses a compuseram para ele. A sinfonia é sua marca. Ela o distingue de todos os demais. Agora a Turca! — Wolfie exclama entusiasmado, já preparando o arco para reiniciar o suplício.

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