17 - O dia que nunca chega

sob o prelúdio de Tristão e Isolda

Se quisesse ainda ter futuro, teria desejado viver bem longe daquela casa e daqueles dois velhos, teria preferido zanzar pelas ruas daquela cidade triste e miserável, sob as tempestades de verão e o frio ameno do inverno e as grandes ondas que não banhavam o litoral de Belô. O médico se acocora diante do armarinho e retira um aparelho. Um espéculo, hahahá!  O homem no divã alça uma das mãos e a aponta numa direção. Cândido olha. É uma porta. Levanta-se, vai até ela e abre. Tudo escuro do outro lado. Tateia na parede lateralmente, buscando um interruptor, não acha.
Camisas e blusas e calças de costura recobrem quase todos os móveis e barcos mágicos eternamente a aguardar no cais inexistente até o Grade Dia da Procura.
—  Vire-se, por gentileza. Vontade de fazer nada. Não faço sexo há seis anos.
Espera, como sempre. Obedece, como sempre, e gira. O frio do metal no interior das nádegas o confunde. Sente o ânus se abrindo. Escancarado. O suficiente para que o diabo saia e uma tropa de duendes entre. Abúlico? Que significa isso?
Apesar de viver no interior de Minas.
—  Um-um. — É o doutor examinando doutamente seu sistema de escapamento. Por dentro a Décima cessa de repente para dar lugar ao Freude, schoener Goetterfunken, Tochter aus Elysium... Ando meio abúlico.
O caminho até o porto parece real para além da cerca de arame farpado e todas as vontades se unem numa só.
—  Uuuum-uuuum. —  Um-uuu uuu uuuuu uuuuuuuum. Parece que tudo o que ele fala é traduzido do inglês, Cândido pensa.
Chegado o dia, atiraria o chaveiro no telhado da casa, apanharia o guarda-chuva e partiria simplesmente. O médico se recosta na cadeira. Tira os óculos. O olhar visceral agora está sereno. Em que posso ajudá-lo?
O barco não teria velas brancas certamente nem tampouco os pensamentos seriam atormentados por dúvidas ou contradições.
— O senhor não respira.
Cândido olha para ele. Continua deitado, voltado para a parede. O homem abre um longo bocejo de quem parece não dormir faz três dias.
Ainda não sabe se daria um beijo em mamãe-estátua e lançaria um último olhar ao paletó de papai-estátua eternamente pendurado no mancebo ao lado da porta da sala.
— Como assim, não respira, doutor? Pronto, está bem, está bem! Pode parar.
Por favor, Dinho. Não vá!
—  Não respira. Seus pulmões não funcionam. De repente um vento poluído traz um perfume, um perfume que nunca mais havia sentido, tão palpável que cobre o nariz e a boca para se proteger de algo imenso invisível. Não pode ser mera imaginação. Ela está aqui. Voltou! Ergue a cabeça, sabe que se esconde em algum lugar, será redimido pelo perfume. Olha a rua e só vê o asfalto que definha atrás da curva, as velhas casas enegrecidas, a gente resolutamente perdida em si zanzando dum lado a outro sem saída.
Sabe que devia se comover.
— Isso não faz mal pra saúde?
A noite vem chegando. A rua escurece à medida que tudo dentro dele começa a ficar claro. A festa de fogo. Como sempre, se admira de estar incendiando de branco e ninguém notar, oh sou o rei da compostura! Amiguinho, estou em chamas! Não enxergas? Não, tuas retinas se queimaram. Pai! Vem salvar teu filho que está entregue aos monstros da solidão e não sabe combater, pai! pai! me dá a mão e me leva contigo para longe das coisas que não entendo. Fecho os olhos e ergue a mão e pensa, agora vai dar, vou acreditar fervorosamente e vai dar, este desejo tem de ser realizado.
Melancólico, volta-se para a tarde que se esvai por trás das montanhas mineiras, sensação em que tenta se debater num poço de areia movediça, os braços pesando dolorosas toneladas. Começa a afundar. Céus! quer dizer que faço parte da galeria dele. Oh deus, prova-me que sempre estive errado e te faças presente. Oh deus que não existe, és minha única salvação.
Ouve o chamado de mamãe-estátua para almoçar. Leva a mão direita ao peito, tentando sentir as batidas do coração. Quer soltar um suspiro de alívio e dizer “ufa, ainda bem!”. Não sabe se deve. De certa forma, sempre esperou um diagnóstico daqueles. Não pensa. Não sabe se deve. O amiguinho apenas olha.
Você precisa comer! vem a chicotada assim que ocupa seu lugar à mesa, o título que ganharia se fosse um cavaleiro do reino, o garfo e faca, suas armas, o monte de verdura e legume no prato, seu prêmio.
— O senhor tem certeza, doutor? Corre para a porta pela qual entrara e gira a maçaneta. Está trancada. Corre para a porta por onde vira seu amiguinho sair e gira a maçaneta. A porta se abre. A cruza, esmagado por um peso quase intolerável. Assim que passa para a outra sala, a luz é acesa. Olha em volta. Está numa galeria de retratos. Começa a examiná-los. São anônimos, mas cada um guarda uma dolorosa semelhança com alguém que ele não consegue reconhecer. Se põe a caminhar, estudando os rostos. Começa a passar por cada um dos dias que viveu, acompanhado pelos rostos desconhecidos que o espiam entre perplexos e compadecidos. Será minha família? Sim! Finalmente encontrei minha casa! Os rostos riem e ele percebe que tornou a se perder. Oh! devo ter uma família. Não é possível não ter. De repente topa com seu amiguinho, que está recostado a um poste, aparentemente esperando o ônibus. Me leva contigo! Me dá um nome, um endereço, me leva ao porto, me prende a um lastro. Pois você também tem tua galeria, não tens? Espero que não tenha meu retrato. Não suportaria a dor de estar em tua fantasmagórica galeria. Onde está tua família, cara? Por que se afastou dos que te amavam?
Bem, precisamos levar esse menino ao médico. Olha! Está que é só pele e osso. Papai-estátua baixa a cabeça e faz que sim.
— O senhor não respira há exatamente quatro anos e oito meses. Cândido se põe em pé, atônito. O homem no divã então se volta para ele e Cândido cerra rapidamente os olhos quando vê o rosto dele. É um rosto que ficaria gravado no seu cérebro e jamais se apagaria — disso tem certeza.
Será que preciso comer a Heleninha? Nem imagina como faria para lhe pedir que tirasse a roupa, lhe desse um beijo, abrisse as pernas.
— Não pode ser, doutor. Nem percebi. Você não faz ideia de quão próximo esteve do inferno. Rê-rê-rê.
Na adolescência concluiu que precisava beber, não comer. O primeiro porre ao fim dos doze anos o convenceu do poder irresistível da sensação etílica do mundo.
— Comprove o senhor mesmo. — O médico apanha um objeto numa gaveta. É um espelhinho. Se põe em pé, dá a volta na mesa, aproxima o espelhinho de sua boca. Cândido decide obedecer, entre contrafeito e temeroso. Ergue o olhar, mas o outro já se afasta, ainda fitando Cândido, agora com expressão fechada. Cândido enxuga um suor da testa, aliviado.
Findo o suplício do almoço, voltou a não pensar em nada.
— Bafeje aqui. Deixe de lado a compostura, essa compostura que você sempre usa temendo cair em vexames. Olhe e peça.
Mais um dia que morre sem que nada nasça no lugar. Morreria de vergonha se alguém o chamasse de pederasta. A família da menina na certa a botaria num convento e nunca mais se veriam. Trocaria a tortura solitária da inaptidão para a vida pela desconfiança aguda de todos em volta. Bafeja. O médico olha o resultado no espelho, lhe mostra. Como devo me dirigir a ele?
Não tem dúvida de que a noite também será a mesma de ontem, de antes de ontem, de sempre.
— Está vendo? Nada. Simplesmente peça.
Engraçado como nunca ninguém ria naquela casa. Fora diante da tevê. O médico se volta para a mesa, apanha uma folha de receita, rasga uma pontinha de papel, pousa a pontinha na palma da mão e aproxima a mão de sua boca. Não sei.
Tudo cheirava a angústia.
— Sopre aqui. Peça-lhe ajuda.
Tudo era um peso.
Sopra. O papelzinho não se mexe. Sopra mais forte. Nada. Espalma a própria mão diante do nariz e sopra com toda a força. Nada. Não posso.
O dia que reunir coragem e levantar cedinho e sair ainda na madrugada e tomar o rumo do porto e saltar para dentro do barco e se instalar em seu posto na proa sob a chiadeira das aves litorâneas de Belô, se proclamará capitão de si mesmo.
— É o que lhe digo. O senhor não respira. Há exatamente há quatro anos e oito meses. Humhum. Diga olá.
Se deita, olha a porta fechada, ouve o bulício de resmungos e o anúncio da Esso na sala. — E não tem perigo, doutor? Ele...? O senhor quer dizer, ele?
A menos que aconteça um acidente. O médico rodeia a mesa e retoma o lugar em sua cadeira. Não é, não. É ele.
— Bem, a literatura médica não relata casos fatais. Sou eu, sim!
— E se começar a cheirar mal?
Tudo sempre teve esse fedor insentido que aos poucos vai nos matando sem que possamos perceber.
— Quer dizer que posso ficar tranquilo? Cândido faz novo esforço e reexamina o rapaz em pé à sua frente.
Que se diversifica pelo, digamos, gênero, dependendo da estação e do ano, do lugar.
— Por outro lado, nunca se sabe. Apesar dos grandes avanços científicos dos últimos tempos, existem alguns mistérios da medicina que continuam praticamente insondáveis. De qualquer forma, quero que o senhor se consulte com um colega meu, especialista em casos de falta de respiração. Enquanto isso, vou receitar uns comprimidos para aliviar os sintomas. Este não é você! Olhe de novo.
Nesse dia finalmente navegaria sob sua própria bandeira. O doutor apanha o bloco de receita e garatuja seca e rapidamente uns garranchos de médico. Pedir ajuda a mim mesmo?
Na instalabilidade das marés e na vertigem das ondas e na flutuação do horizonte faria sua casa.
— O endereço do meu colega está anotado embaixo. Passar bem. Peça-lhe ajuda! — o homem no divã diz.
Ao seu lado, no cesto de gávea, a sereia Heleninha, metida num vestido de baile esvoaçante em longas, diáfanas sedas e ornada de colares e pulseiras de conchas e caracóis, enquanto o barco cruzava solene as águas salpicadas de náufragos e afogados a suplicar roucos por socorro. Ele sai da sala de consulta para a recepção. Ao passar pela estátua do dr. Geraldo Ribeiro as pernas redobram de peso, cala fundo uma necessidade de lhe vergar uma saudação. Resiste e abre a porta da rua. Quando põe os pés na calçada quer soltar a respiração. Olha. Primeiro de canto, breve. Depois com mais vagar. De repente, reconhece. É... é... ele! Que continua a fitá-lo com a mesma expressão agonicamente indefinível. Infensa aos pensamentos, às palavras.
Sonho dos delírios, nunca mais acordar com cada um dos sentidos tomado pelo mofo da dor. Volta para casa. Entra. Mal fecha a porta da sala, chama: Obedeça!
De repente ri da impotência com que representa o papel de capitão. Ri sem achar graça. — Bete! Bete! Não posso! O pudor me impede.
Quer rir também do atrevimento, desiste.
— O quê! — Bete responde de algum lugar. Olhe para ele! — o homem no divã ordena.
Sua curiosidade é chama que perece à primeira brisa, insuficiente para acalentar a pontinha da alma.
— Corre aqui! Um sujeito entra na sala, passa por ele e o olha com um ar entre curioso, distraído, respeitoso e intrusivo. Uma expressão que às vezes vê nas pessoas nas ruas. Cândido não suporta e desvia o rosto.
Essa porcariada como fé na vida, auto-estima e os cambaus. Quando Bete aparece na sala, ele já está jogado na poltrona, pernas estendidas, as duas mãos no peito. Chega! — o homem no divã comanda com autoridade que não deixa a Cândido outra opção senão calar-se.

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