19 – Início da jornada pela morte vida adentro


Os dois se entreolham. Embora a figura do recém-chegado seja algo vaga à estranha tíbia luz do lampião pendurado sobre a mesa, Cândido pode perceber que tem altura e peso semelhantes aos do porteiro. Querer, no duro, eu queria um checkup. Mas por ora basta um trato na memória.
Papai-estátua o segura, não faça uma besteira, suplica. Cândido olha o pai sem esperança de que o entenda. Espanta-se vendo que se engana.
— Por que tudo tem de ser eu nesta joça? — Albuquerque brande os braços. — O que foi agora, seu batateiro duma figa? Pois bem. O que você quer aqui?
Passa as mãos pelos quadris: — “Sem calça! Deu agora para andar sem calça, sua égua!”.
— Cadê o prontuário do Cândido que deixei bem aqui?
Não, de forma alguma. — Cândido pensa em perguntar quem seria a recepcionista. Não pergunta.
O batatudo empurra o outro ríspido, arregaçando uma bocarra que seria capaz de engoli-lo. E por que a cisma da virgindade? Se gosta dele, algum mal em deitar no sofá? Prefiro assim.
— Que Cândido?
Poderia lhe dizer que seu horário é nunca! Hehehe! Nunca! Entendeu? Mas é claro que não vou dizer. A agenda fica com a recepcionista. Tenho cara de recepcionista?
Mamãe-estátua sorriu, olhinhos fechados, encantada.
— O distinto aí. — Com o queixo, o porteiro indica o recém-chegado, que continua parado no mesmo lugar, mais imóvel que a estátua do dr. Geraldo Ribeiro. Se o senhor me disser, fico agradecido.
Aquele dia um cometa riscou os céus de Minas. Albuquerque volta a cabeça para o lado de Cândido e com uma carranca recriminadora mira-o diretamente nos olhos. Você não quer saber qual é o seu horário?
Bate na testa:
— “Emprestas o teu?” — Ah, esse! —apõe um “puffff” de desdém ao fim da frase. — Já não era sem tempo!
Cândido aguarda. O homem se limita a confirmar que sabe a resposta. Mas não diz qual seria. Cândido engole em seco sem se atrever a repetir a pergunta.
Vaga vida vaga essa vida sua vagamente nada e tudo, desastres, milagres, desconcerto indizível. Aquela noite o vento soprou varrendo as ruas do vilarejo querendo arrastar as pessoas aonde houvesse paz.
Cândido se aflige ainda mais. Fica confuso: como o sujeito localizou seus olhos na escuridão absoluta?
Sei, sim.
Dois meses no máximo! Tão pouquinho assim? insistiu.
— Filiação?
—.O senhor por acaso sabe meu horário?
A luz na sala vai definhando paulatinamente. Cândido começa a responder. O Geraldo não pode atender no momento.
Faz o seguinte: chiiiiu! — o porteiro o interrompe bruscamente. — Só fale se interpelado! — Dirigindo-se a Albuquerque: — Pai Josefino Brandão, mãe Irani Franco Brandão. Consulta com o doutor Geraldo.
Uma batida em seu joelho. Uma mosca pousa na ponta do nariz do doutor.
— Avós paternos?
Exatamente! Vejo que aprende depressa. Quanto ao seu problema, você quer... quer... o que é que você quer mesmo?
Cândico não se espanta mais. O cheiro de mofo no ambiente lhe assoberba os sentidos
— Geraldo Fernandes Brandão, Nair Reginalda dos Santos. São! — Cândido completa a frase arriscando.
Mamãe-estátua rouba uma beijinho igualmente arriscado.
— Maternos?
Não infira. Aqui não inferimos nada. Esse tipo de lógica não tem serventia alguma agora. Aqui, ou as coisas são ou não...
— Irineu Franco, Odete Toledo Nunes. Bem, inferi...
Mamãe-estátua sabia ser gentil. Quando queria.
— Registro geral? Só porque está escrito doutor Sakan na porta quer dizer que eu sou o doutor Sakan? É essa a lógica que você usava para se orientar naquele outro lugar lá...?
Os olhinhos do batateiro se fecham a dois risquinhos — baba fosfórea de lesma —, sem perder a legenda: Vai ser gentil, amor? O marrudão de pé espreita da porta, cara raivosa de cachorro do mato.
— Ême cinco nove sete nove oito oito oito a trinta e 38 barra cê quarenta e seis traço sete. É que na porta está escrito...
— Naturalidade?
Quem disse que sou o doutor Sakan? Eu disse?
Oh, meu Deus... — Guaranhuma ême-gê. Sim, doutor Sakan. Desde que...
Para quê? Ela tentava se aproximar na certa para pedir um restinho de afeição.
— Nacionalidade? Cândido não se surpreende que o outro conheça seu problema. Responde com simplicidade.
O fucinhudo bate a porta e vem praguejando com passos ágeis improváveis para o corpanzil de sedentário nato.
— Brasileira. Quer dizer então que está com problemas de memória? — o homem diz sem se voltar.
— O senhor considera que teve uma vida honesta?
Cândido não se espanta de novo. Tudo mundo no interior de Minas tem vida honesta.
— Testemunhas? Cândido arrasta penosamente os pés até a cadeira. Senta-se. Espera.
Só na minha cabeça. Cão Hidrófobo retorna tropeçando para a porta. Pousa a mão na maçaneta mas não abre. Cândido escuta pingos de chuva, olha pela janela, o sol brilha.
— Moacir... Sente-se, já disse! — o homem rosna.
Seus tímpanos tilintam quase ao intolerável. Não está acostumado à rispidez alheia. Aprendeu a gostar de lisonjeios em vez disso.
Bela duma ficha para quem disse não ter burocracia, Cândido dá novamente de ombros sem ousar manifestar o pensamento, já sem paciência de escutar os nomes das testemunhas.
Leva um susto. A voz vem dos lados do divã. Só então enxerga. No divã há um homem deitado, de costas para ele.
Mas que sujeito mais teimoso. Albuquerque enfia um dedo indicador no meio da maçaroca sobre a mesa e retira uma pasta. Arremessa-a raivosamente sobre as demais.
Sente-se! — uma voz ordena.
— Algum argumento? — quer saber o cultivador de batatas.
Como assim, argumento, porra! Esse fedepê só inquire sem explicar nada! Escuta, escuta! Deixa eu falar.
— Aí está, sua besta! Ninguém sabe achar nada nesta porra!
Cândido obedece. Assim que entra a porta é fechada num baque. A sala está na penumbra, mas os olhos de Cândido já se acostumaram à escuridão. Parece não haver mobília, exceto uma cadeira e um divã no fundo da sala.
Papai-estátua sai para o trabalho. A campainha da porta de entrada toca.
— Entre — o porteiro diz.
— Você logo vai se ambientar, não se preocupe. Temos apenas uma exigência por aqui.
Sei. Qual?
Não economizamos velas — o porteiro responde para o não espanto do recém chegado.
Não se metam na minha vida, é tudo que peço. Ué, Cândido pensa, quando badalei aquele sino não vi campainha nenhuma.
A porta se abre.
A vela finalmente se extingue e o cachorro doido risca um fósforo acendendo outra.
— Outro! — O porteiro espreme violentamente os lábios e vira os olhos para cima, num gesto de extremo aborrecimento. — Quem chegar a partir de agora vai pro saco! Finalmente um médico, Cândido pensa. Afinal, não foi tão ruim como esperava.
— Não bote reparo na zona, com o tempo você se acostuma, hehehe. Calma — ele pede. — Não faça nada do que possa se arrepender depois. Apanha Cândido por um braço, arrastando-o escuridão adentro. Passam por uma infinidade de corredores e portas. Cândido tem a impressão de que já caminharam umas vinte horas quando o batateiro de repente para diante duma bendita porta. Bate, logo abaixo duma tabuleta onde está escrito “DR. JAK SAKAN. RESOLVO TODOS OS SEUS PROBLEMAS, CLARO!”
O maior medo de papai-estátua era que os comunistas tomassem o poder.
— Você vai ver só a calma. — O porteiro se afasta rumo à porta de entrada, batendo violento e rancoroso os pés no chão. Mau sinal! — O batateiro franze a testa. — Venha comigo. Vamos resolver isso agora mesmo.
A afeição acabou assim tão rápido. Assim tão fácil? Sem mais nem menos?
— Esse cara ainda vai se meter em encrenca — ele comenta para si mesmo, meneando a cabeça. E dirigindo-se a Cândido: — Você! Vem comigo. — Apanha a lamparina e ruma para uma das muitas portas que há na sala.

Puxa! — Cândido põe a mão na testa. — Vivo me esquecendo desde que cheguei aqui. Lá fora minha memória não falhava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário